Vida boa…


                       
Aí está uma questão interessante: qual a vida que realmente queremos ter? Será que todo mundo gostaria mesmo de passar a vida em uma praia, deitado numa rede, bebendo água de coco e não fazendo nada de útil? Para mim, este modelo de vida poderia ser interessante nos primeiros dois dias, embora logo que chegasse à praia certamente eu perguntaria: “aqui pega internet?”.
Sempre que este assunto surge, muita gente acaba por agregar uma certeza a esta ideia: isto só aconteceria se ganhasse um grande prêmio numa loteria dessas. Já está no inconsciente humano a certeza de que é impossível termos a vida que sempre sonhamos, se é que sonhamos em ter alguma vida em especial. A vida que queremos ter é a verdadeira busca do mundo ideal!
O que mais me chama a atenção quando especulamos sobre a vida que queremos ter é que geralmente quase ninguém cita o trabalho, preterindo-o face à ociosidade. A resposta é quase unânime: “nunca mais trabalharia na vida!”. O fato é que a maioria das pessoas ainda encara o trabalho como uma tortura ou algo desconectado com o prazer. Muita gente, após determinada idade, passa a sonhar com a aposentadoria só para não ter mais nada a fazer. Importante frisar que muitos dos aposentados ainda têm todas as condições físicas e mentais para continuar trabalhando, mas preferem passar o resto de suas vidas jogando “damas” nas praças públicas ou paciência no computador. Isto acontece principalmente porque as pessoas não buscam ter uma realização profissional e sim um emprego seguro e, se possível, bem remunerado, não importando o que seja. Assim, temos um verdadeiro exército de frustrados e de profissionais que fazem suas tarefas de forma mecanizada, sem nem saber o que estão fazendo, e ainda ensinam seus filhos a seguir este mesmo caminho. É a mesmice passada de gerações em gerações!
Na vida sentimental e familiar os verdadeiros desejos de uma vida excelente podem ser reveladores, pois em muitos casos os cônjuges não estariam presentes na realização desses sonhos. Para muitos homens, as mulheres ideais num mundo perfeito, não são, sob nenhuma hipótese, suas esposas. A maioria dos homens sonha com mulheres lindas e inteligentes, vida independente e órfã de mãe, com corpos esculturais e desejosas de sexo vinte e quatro horas por dia (nos sonhos masculinos, seus protagonistas sempre são viris, verdadeiras máquinas de sexo!). Detalhe importante, o mesmo ocorre com as mulheres! Só que as mulheres querem homens que não sejam acomodados, desleixados e que não tenham amigos boçais para incentivar bebedeiras. Elas nem se importam tanto com a aparência física, desde que o homem corte sempre as unhas e tome banho todos os dias.

Mas, na vida sentimental o mundo ideal parece nunca ser atingido. Na infância, todos entendemos que os brinquedos dos nossos coleguinhas sempre são mais interessantes que os nossos. Na adolescência, nós homens achamos que a vida de nossos amigos sempre é mais afortunada que as nossas e que as nossas namoradas sempre estão de olho nos “brinquedinhos” dos nossos coleguinhas. Já as mulheres, desde a adolescência, têm a certeza que seus cabelos não são tão belos como deveriam ser e que elas deveriam emagrecer, pelo menos, dois quilos. Além disso, sempre acham que todas as outras meninas querem seus namorados, mesmo que eles sejam uns cretinos. Que insegurança!
Depois, por medo da solidão e por cobranças da sociedade, homens e mulheres, em certa idade, precisam se casar. Neste momento, mesmo após inúmeras escolhas, casa-se, nem sempre com quem se ama de fato, mas com quem estiver a mão. É uma triste realidade, mas é a mais pura verdade. Casa-se com quem poderá proporcionar um belo e estável futuro e ser impecável (pensa-se assim) na vida familiar. Ou seja, até na vida sentimental o comodismo se apresenta.
Após o casamento e, novamente com toda a pressão da sociedade, vêm os filhos. E os pais, naturalmente, logo depositam nas crianças todos os seus sonhos e desejos mais íntimos. É comum ouvirmos que “meu filho será neuro-cirurgião ou um grande cientista!”. Acredito que ninguém diga (pelo menos em voz alta): “meu filho será um exemplar político corrupto!”. Mas, conforme os filhos crescem, os pais percebem que aquela criança que antes consideravam superdotada, é uma criança normal, que tira notas baixas na escola e que se comporta como um monstrinho sociopata. Por isso que num mundo ideal os filhos estão sempre num colégio interno na Suíça e só visitam os pais duas horas por ano!
Mas, a vida que eu quero, seria bem interessante, pelo menos para mim! Primeiro, todos os meus projetos de trabalho aconteceriam dentro dos prazos estipulados, sem que nenhum cretino ou nada interferisse neste sentido. Jamais, por vontade própria, eu pararia de trabalhar. Entendo o trabalho com algo estimulante, que me dá toda uma razão de existir.
Na vida que eu quero para mim, o tempo continuaria sendo escasso e acelerado, mas sem trânsito caótico, engarrafamentos e guardas municipais que só sabem multar, e não orientar. Neste mundo ideal o Estado seria mínimo, sem cabides de empregos em governos corruptos. E, já que é para sonhar num mundo quase perfeito, neste mundo, quando eu fosse ler as notícias do dia, encontraria manchetes do tipo: “Lula e José Dirceu foram presos por corrupção!”.
Na vida que eu quero para mim as roupas não precisariam ser passadas e não haveria poeira nas casas. Assim, não precisaríamos de faxineira, nem de empregadas domésticas que quebram tudo. Um detalhe importante que deve acontecer neste mundo ideal é que as comidas seriam sempre saborosas e não engordariam. Logo, não mais existiria jiló, pepino, mortadela e dobradinha. Não adianta insistir, por que não teria mesmo!
Ainda na vida que eu quero para mim meus relacionamentos continuariam acontecendo, não sendo substituídos por um relacionamento único (a não ser que fosse com a Julia Robert ou a Mariana Ximenes), pois num mundo ideal as mulheres são mais desprendidas de egoísmos, digamos, físico-sexuais e todas me desejariam ardentemente. Será este um sonho possível?
Sei que dificilmente todos os meus desejos seriam plenamente alcançados e/ou realizados. O grande passo que devemos dar no caminho dessa realização é nos conscientizarmos de quem somos de fato e do que realmente queremos na vida. Saber isto às vezes dói e muita gente acaba se acovardando! Com o passar dos anos aprendi que se eu não lutar para realizar meus próprios sonhos, ninguém o fará por mim. É a vida…

Por: Alessandro Lyra Braga é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. 

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