Ética: política do atraso

    Por: Amaury Cardoso
A mobilização da sociedade que culminou com as manifestações de junho foi um marco que revelou o despertar da cidadania, que descontente com o crescimento da corrupção, da impunidade, da ineficiência e precariedade dos serviços públicos, da baixa qualidade dos sistemas de educação e saúde, do transporte coletivo caro e ineficaz e dos privilégios abusivos da classe política, configuraram uma crise de representação onde a insatisfação com os políticos e a descrença nas instituições de poder, confirmam a falta de conexão entre governantes e a população.

Diante desse fato, a reforma política volta a agenda política do país como forma de buscar conter as mazelas da política brasileira, que corrói sua credibilidade, melhorando a qualidade da representação política, em especial seu aspecto ético, bem como o controle do eleitor sobre seus representantes, sintonizados com as exigências atuais da cidadania, que passa a ter voz e poder de decisão.

Várias foram as tentativas de se promover uma reforma política que avançasse para o aperfeiçoamento da instituição partidária, do processo eleitoral e de sua representação política, temas amplos e complexos que não se permitem mais postergar sob a ameaça a democracia representativa. Dentre os temas em discussão, destacamos a necessidade de um debate profundo dos seguintes pontos:

1- Financiamento de campanha que definirá o modo como os partidos políticos pagam a conta de suas campanhas eleitorais;
2- Fim das coligações partidárias, unificação do calendário eleitoral integrando as eleições municipais, estaduais e nacionais;
3- Mudanças no sistema eleitoral com a escolha entre os modelos: lista fechada, lista flexível, voto distrital, voto majoritário ou distrital;
4- O recall político que cria medidas de participação popular que permita à população destituir, por meio de recolhimento de assinaturas, políticos que não cumprirem suas promessas de campanha (talvez este seja o tema mais polêmico).
Para a verdadeira efetivação da democracia representativa e participativa torna-se imprescindível interromper o descompasso da instituição partidária e nossa classe política com as demandas da sociedade do século XXI.

Em suma, a sociedade clama por representantes honestos, eficientes, que atuem com transparência e sintonizados com os seus anseios, que se voltam por mais justiça social, com resultados diretos para o aumento da sua qualidade de vida.
A proposito da visita de sua santidade o Papa Francisco, que com sabedoria e simplicidade define de forma crítica a política atual, concluo com uma citação de sua mensagem: “Algo aconteceu com a nossa política, ficou defasada em relação às idéias, às propostas… As idéias saíram das plataformas políticas para a estética. Hoje, importa mais a imagem que o que se propõe. Saímos do essencial para o estético, endeusamos a estatística e o marketing”.

A população se sente afrontada com contínuos casos de corrupção, com constantes descasos e desmandos. O que esperam dos governantes e da classe política é que possuam uma visão humanista e compromisso com a justiça social e que, diante de suas responsabilidades, mantenham diálogo e interajam, principalmente, com a base da sociedade, que é a que mais dependem de suas decisões.
Entusiasmado, e de certa forma confortado, percebo que a cada eleição vem se fechando os espaços para discursos fáceis, sem consistência e ilusórios, bem como para a ineficiência de políticos e gestores na condução da administração pública, pela percepção cada vez mais clara do cidadão de que suas decisões podem impulsionar ou retardar o bem estar social.

Rezemos para que com a passagem do santo Papa, de vocação jesuíta, em solo brasileiro, Deus nos conceda o milagre de fazer com que nossos governantes se 
libertem da vaidade, ganância e arrogância e passem a pautar suas decisões priorizando a justiça social.

Por: Amaury Cardoso é físico do IMETRO / IPEM-RJ, pós-graduado em Administração Pública e Políticas Públicas e Governo. Pós-graduado em Gestão Pública. Membro e delegado do Diretório Municipal / Rio e do Diretório Estadual/RJ do PMDB. Blog:www.amaurycardoso.blogspot.com


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