Concurseiros: veja o que diz a ciência sobre as técnicas de estudos

        Por: José Wilson Granjeiro
Resumos, grifos, mnemônicos e mapas mentais são pouco eficientes como métodos. De acordo com colunista, teste prático e distribuir conteúdo ao longo do tempo geram melhores resultados
Amigos, as vantagens de entrar no serviço público por concurso são muitas. Entre elas, posso citar os bons salários no início de carreira, os bons proventos na aposentadoria, a estabilidade no emprego, a regularidade das jornadas de trabalho, a possibilidade de admissão e ascensão profissional por mérito e a valorização da carreira no mercado de trabalho. Contudo, para vencer o desafio de passar em um concurso, três requisitos são fundamentais: muito estudo, muita disciplina e muita dedicação. Ao somar esses três fatores, o candidato já terá 50% de chances de aprovação. Para que ele complete com sucesso a preparação, precisa saber estudar, a fim de não desperdiçar esforços com técnicas que não produzam os melhores resultados.

A propósito, acabo de tomar conhecimento de um estudo, publicado em janeiro deste ano na revista científica Psychological science in the public interest, que avaliou dez técnicas comuns de aprendizagem para classificar as mais eficientes. O resultado traz algumas surpresas. Práticas bastante populares no Brasil, como resumir, grifar, utilizar mnemônicos, visualizar imagens para apreensão de textos e reler conteúdos foram classificadas como as de menor utilidade. Três práticas foram elencadas como de utilidade moderada: interrogação elaborativa, autoexplicação e estudo intercalado. Finalmente, as duas que obtiveram o mais alto grau de utilidade na aprendizagem foram as técnicas de teste prático e de prática distribuída.

Longe de mim considerar esse estudo uma verdade absoluta. Muito pelo contrário, já deixei registrado inúmeras vezes que cada pessoa tem suas preferências em relação às técnicas de estudo. Uma técnica pode ser boa para um estudante e não funcionar de jeito nenhum para outro. Nesse assunto, cada qual desenvolve o próprio método. Mas é certo que há alguns truques que comprovadamente funcionam bem para a grande maioria das pessoas. Por isso, vale a pena conhecer as conclusões dessa pesquisa, que, como eu disse, traz algumas surpresas. Muita gente não as levaria em consideração, exatamente por considerar pouco eficientes técnicas de ampla utilização entre os estudantes. E é aí que vocês que me leem podem ter um trunfo.
Como eu mencionei, o estudo da Psychological science in the public interest desaprova métodos de estudo baseados principalmente em resumos, grifos, mnemônicos e mapas mentais. “Se a ciência diz isso, pior para a ciência”, dirão os adeptos dessas práticas. E eu lhes dou razão, porque – já diz a sabedoria popular – cada um sabe onde o calo lhe dói. Entretanto, os autores do estudo também confirmaram a impressão geral de que a resolução maciça de questões, um de nossos mais importantes métodos de estudo para concursos públicos, é, de fato, extremamente eficiente na preparação dos candidatos.
Em síntese, o artigo da revista reflete os resultados de uma pesquisa científica, porém é preciso lembrar que cada pessoa desenvolve o próprio estilo. Portanto, ninguém é obrigado a mudar a maneira de estudar. Dito isso, vamos, então, conhecer as dez técnicas, das piores para as melhores, segundo a classificação da revista Psychological science in the public interest.
Grifar (utilidade: baixa)
Segundo o estudo, a técnica de apenas grifar partes importantes de um texto é pouco efetiva pelos mesmos motivos pelos quais é tão popular: praticamente não requer esforço. Quando se grifa uma palavra ou um trecho de um texto, o cérebro nem organiza, nem cria, nem conecta conhecimentos. Logo, grifar só pode ter alguma (pouca) utilidade quando combinada com outras técnicas.
Releitura (utilidade: baixa)
Reler um conteúdo, em regra, é menos efetivo do que as demais técnicas apresentadas. O estudo, no entanto, mostrou que alguns tipos de leitura (massive rereading) podem ser mais eficazes do que resumos ou grifos, se aplicados no mesmo período de tempo. A dica é reler imediatamente depois de ler, por diversas vezes.
Mnemônicos (utilidade: baixa)
Em apostilas e sites de concursos públicos, é muito comum ver listas de mnemônicos (algo relativo à memória) que exploram as primeiras letras ou sílabas do conteúdo que se quer memorizar. É o caso do mnemônico SoCiDiVaPlu, formulado para ajudar a decorar os fundamentos da República Federativa do Brasil (artigo 1º da Constituição).
Para a tristeza dos estudantes que adoram esse método, o estudo da Psychological science in the public interest mostrou que os mnemônicos só são úteis quando as palavras-chaves são importantes e quando o material estudado inclui palavras-chaves fáceis de memorizar. Assuntos que não se adaptam bem à geração de palavras-chaves não foram bem apreendidos com o uso de mnemônicos. Então, recorra a eles apenas em casos específicos e, de preferência, pouco tempo antes das provas.
Visualização (utilidade: baixa)
Os pesquisadores pediram que estudantes imaginassem figuras enquanto liam textos. O resultado foi positivo apenas na memorização de frases. Em relação a textos mais longos, a técnica mostrou-se pouco útil. Surpreendentemente, a transformação das imagens mentais em desenhos também não demonstrou aumentar a aprendizagem e ainda trouxe o inconveniente de limitar os benefícios da imaginação. Isso não invalida completamente o uso de mapas mentais, já que esses desenhos consistem na conexão de ideias e conceitos. De qualquer maneira, o estudo demonstra que a visualização não é uma técnica eficiente para provas que exijam conhecimentos inferidos de textos.
Resumos (utilidade: baixa)
Resumir os pontos mais importantes de um texto sempre foi uma técnica quase intuitiva de aprendizagem. Contudo, o estudo demostrou que os resumos são úteis para provas escritas, mas não para provas objetivas. Embora tenha sido classificada como de utilidade baixa, a técnica de resumir ainda é mais eficaz do que a de grifar ou a de reler textos. Segundo os pesquisadores, a técnica pode ser uma estratégia efetiva para quem já é hábil em produzir resumos.
Interrogação elaborativa (utilidade: moderada)
A técnica de interrogação elaborativa consiste em criar explicações que justifiquem por que certos fatos apresentados no texto são verdadeiros. O estudante deve concentrar-se em perguntas do tipo “Por quê?” em vez de em questionamentos do tipo “O quê?”. Seguindo o exemplo dado algumas linhas atrás, em vez de decorar o mnemônico SoCiDiVaPlu, o ideal seria perguntar, por exemplo: “Por que o Brasil adota a dignidade da pessoa humana como fundamento da República?” Em seguida, deve-se buscar a resposta na origem do estado democrático de Direito e na adoção do princípio da dignidade da pessoa humana pelas principais democracias ocidentais após a Revolução Francesa.
Note que esse tipo de estudo requer esforço maior do cérebro, que se concentra em compreender as causas de um dado fato, investigando suas origens. Em se tratando de concursos públicos, a técnica da interrogação elaborativa faz toda a diferença na hora de produzir redações ou de responder questões discursivas.
Autoexplicação (utilidade moderada)
A técnica da autoexplicação provou ser útil para a aprendizagem de conteúdos mais abstratos. Na prática, trata-se de ler o conteúdo e explicá-lo com as próprias palavras para você mesmo. O estudo mostrou que a técnica é mais efetiva se aplicada durante o aprendizado em vez de depois do estudo.
Estudo intercalado (utilidade: moderada)
A pesquisa procurou descobrir se era mais efetivo estudar tópicos de uma vez ou se era melhor intercalar diferentes tipos de conteúdo de modo mais aleatório. Os cientistas concluíram que a intercalação tem utilidade maior quando o aprendizado envolve movimentos físicos e tarefas de caráter cognitivo (como nas ciências exatas). O principal benefício da intercalação é fazer que a pessoa consiga manter-se mais tempo estudando.
Teste prático (utilidade: alta)
Resolver testes práticos é uma das duas melhores técnicas de estudo. A pesquisa demostrou que esse método é até duas vezes mais eficiente do que os outros. No caso específico dos estudos para concurso público, a recomendação é resolver o máximo possível de questões de provas anteriores. Não apenas do cargo para o qual você está estudando, mas qualquer tipo de questão que encontrar pela frente. A maneira mais fácil de realizar testes é por meio de sistemas específicos para isso.
Prática distribuída (utilidade: alta)
Essa técnica consiste em distribuir o estudo ao longo do tempo, em vez de concentrar toda a aprendizagem em um único bloco na véspera da prova.
Pesquisas indicam que o tempo de distribuição das sessões de estudo considerado ótimo é de 10% a 20% do período que o conteúdo precisa ser lembrado. Com base nessa conta, se a pretensão é lembrar-se de algo por cinco anos, deve-se espaçar o aprendizado a cada seis meses. Se a intenção é lembrar-se de um conteúdo por uma semana, deve estudar uma vez por dia. A prática distribuída também pode ser interpretada como distribuição do estudo em pequenos períodos ao longo do dia, com intervalos para descanso. Por exemplo, estuda-se durante uma hora pela manhã, uma hora pela tarde e outra hora de noite.
Aí está, amigos, esse interessante trabalho sobre técnicas de estudo. Trata-se de uma contribuição que não pode ser ignorada, diante da seriedade com que abordou o tema. Vocês que estão na luta por uma vaga no serviço público e levam a sério a preparação para as provas podem e devem se apropriar das conclusões da pesquisa. Aplicá-las nos estudos pode ser o grande diferencial a levá-los à conquista do seu tão desejado FELIZ CARGO NOVO!

Por: José Wilson Granjeiro, SOS Concursos
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