Sociedade, vigiada!

Ao percebermos que a sorte não é uma aventura tão casual quanto se poderia esperar, aprendemos a lidar com a vigilância. O acaso disfarça nossa 
                                 Por: Bruno Peron Loureiro
... investir cerca de r $ 479 mil para a compra de cameras de segurancaignorância do tempo. Acreditamos em fortuidades porque entendemos pouco do que está além do frenesi dos acontecimentos presentes. Ao notarmos que os atos premeditados nem sempre resultam em consequências previstas, reconhecemos ainda mais a importância de sermos vigilantes. Mas qual é o ponto de partida de quem vigia?

É a consciência que se tem do alcance do pensamento e da ação.
Primeiramente, temos que estar cientes de que pensar é uma forma de exercer a vontade, moldar as energias e pavimentar caminhos. O pensamento prescreve a ação, embora nem sempre aquele lance mão da vigilância. Contudo, esta não nos põe numa posição defensiva senão de fidelidade a responsabilidades e de compromisso com a serenidade.


Farei uma interpretação tomando como tipos a vigilância privada e a pública.
A primeira refere-se a inquietações emocionais e particulares de cada indivíduo. É muito comum a instabilidade das emoções quando não se tem experiência em algo, num conflito ou litígio, diante de um susto, no cometimento de excessos (comida insalubre) e desgastes (sobrecarga física), no transporte urbano (ônibus lotados, trânsito infindável), e na iminência de receber atos violentos. A vigilância privada requer que tenhamos ânimo para domar nossas instabilidades emotivas.

Por sua vez, a vigilância pública é um tipo que nos afeta como seres sociais em vez de seres individuais. Dou o exemplo de nossa invigilância no manejo da informação que nos chega pelos meios eletrônicos de comunicação (Internet, televisão, rádio, etc.). No menor descuido do bom senso e da razão, transformamos mentiras em verdades, inconvenientes em catástrofes, boatos em fatos.

Quero deter-me um pouco mais na vigilância pública.
Frente ao debate sobre a aprovação ou a reprovação de invasão militar de alguns países ocidentais à Síria, hesito sobre como exercitar a vigilância pública. Uma opinião bem fundamentada e uma decisão bem tomada exigem a compilação da maior quantidade e diversidade possíveis de informação. Vigilar, neste caso, não é uma atitude-referendo de dizer sim ou não, mas uma prática de compromisso coletivo. A proposta da vigilância pública transcende a individualidade.

Não vigiamos somente a nós mesmos, más a nós e a outrem. Ao mesmo tempo, devemos compreender que os outros movem-se por sua crença e racionalidade, seus ajustes peculiares de vigilância. Deste modo, não adianta oferecer aos sírios aquilo que serve ao Ocidente (democracia, liberdade, gasodutos, etc.) porque seu método de vigia é distinto. Daí o fracasso cultural da política exterior dos Estados Unidos, que abusa da vigilância pública ao policiar o mundo e promover a mentira.
Por isso, o redimensionamento fantasioso dos espaços públicos (pensemos nos programas de rádio e televisão, nas redes sociais virtuais e nas agências de notícias a favor da desinformação) aumenta os desafios da vigilância. Não basta aprimorar nosso preparo para a vigilância pública enquanto nos alimentamos mal ou permitimos que pensamentos negativos arruinem nosso dia; nem ter emoções equilibradas e comedimento nas palavras enquanto consentimos com um aumento dos gastos militares dos países ocidentais visando a confrontos injustificados.
Permanece a curiosidade sobre o que realmente está acontecendo no Oriente Médio e o convite a vigiarmos sem censura a nós mesmos. Já que Estados Unidos e França são tão generosos ao proteger as crianças contra armas químicas na Síria – se é que estas se usaram – poderiam também ajudar-nos a reduzir a miséria e a violência na América do Sul, onde as estatísticas da morte não lhes interessam. Há uma generosidade oculta a favor do imperialismo da qual não fala John Kerry.
Tanto a vigilância privada como a pública carecem de sentido fora da consciência. Estejamos atentos aos liames que nos integram como indivíduos aos seres sociais.

Por: Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos pela FFyL/UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México). http://www.brunoperon.com.br
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