Platão: a versão que fica...

O filósofo Platão, por tudo o que li dele (da obra que produziu), ou a seu respeito (o que escreveram sobre ele), me parece ter sido figura excepcionalíssima, no melhor sentido, à qual cabe, a caráter, a cada vez mais rara designação de “gênio”. Entre outras tantas coisas excepcionais, quase inacreditáveis, que lhe dizem respeito, uma das que me causam maior assombro é o fato de ser o único pensador de um passado tão remoto cuja obra preservou-se quase intacta até os dias atuais. Sobreviveu, portanto, a catástrofes, guerras, saques e a outras tantas circunstâncias responsáveis pela perda de irrecuperáveis acervos artísticos, filosóficos e culturais dos nossos remotíssimos antepassados. Além de registrar idéias próprias, revolucionárias ainda hoje (imaginem no seu tempo), é tido como “porta-voz” do seu ilustre mestre, Sócrates, que não legou à posteridade uma única linha escrita de próprio punho. Tudo o que se conhece a seu respeito e sobre suas ideias se deve à generosidade e à meticulosidade desse seu devotado discípulo, Platão.

Até aí, tudo bem. Admito a importância desse gênio da “mãe de todas as ciências”, que é a filosofia. Todavia, sem querer ser nihilista, destes de carteirinha, que tudo questionam, contestam e põem em dúvida, fico indagando a meus botões: o quanto do que se conhece sobre esse gênio é verdadeiro e o quanto não passa de um conjunto de lendas, mitos e versões: ou seja, de ficção? O que há de exatidão em sua biografia? E no que ele escreveu, o quanto, de fato, reflete o que ele realmente pensava? Não houve deturpações? Não é possível, até, que suas idéias tenham sido muito mais profundas e geniais do que o conjunto de textos que lhe é atribuído e que chegou até nós, homens do século XXI? A mesma possibilidade existe, claro, no sentido inverso.


E no que me baseio para cultivar tantas dúvidas? Em uma série de fatores, dos quais mencionarei, apenas, os mais plausíveis. Até meados do século XV da era Cristã, antes da invenção dos tipos móveis, por parte do alemão Johannes Guttenberg, a produção de livros era um processo rigorosamente artesanal. Eram produzidos por “encomenda”. O autor entregava os originais a copistas, que os reproduziam, e na quantidade exata dos que encomendavam as referidas obras. Claro que os profissionais encarregados dessas cópias eram peritos em sua arte. Afinal, viviam disso. Mas eram seres humanos e não máquinas. Eram, portanto, sujeitos a doenças, a gripes e a inadiáveis necessidades fisiológicas que os levavam a interromper a tarefa várias vezes ao dia, para retomá-la a seguir. Encaravam, enfim, todo tipo de circunstâncias tendentes a comprometer (ou até mesmo a suprimir) sua concentração, mesmo que momentaneamente.

Não consigo crer, por outro lado, que houvesse algum copista, um único que fosse, totalmente a salvo de erros. Ou seja, que conseguisse copiar calhamaços volumosos sem cometer um único errinho de grafia, ou sem trocar nenhuma palavra, ou sem omitir não só uma, mas dezenas delas e assim por diante. Afirmo, sem medo de errar, que não havia. Os copistas erravam, sim, e bastante. Ademais, não faziam apenas “uma cópia”, mas, dependendo das encomendas, estas ascendiam a dezenas, quando não a centenas. Ora, pensar que nesse volume todo de trabalho a margem de erro fosse zero é a tolice das tolices. É ser crédulo demais e isso eu não sou. E nem estou considerando o mau entendimento dos originais, em decorrência, digamos, da péssima caligrafia do autor.

Pois bem, essas cópias, não raro, iam parar em outros países, de línguas diferentes da de quem redigiu o livro. Precisavam, portanto, ser traduzidas. E, no processo de tradução, mais distorções em relação ao original ocorriam?. É óbvio que sim. Além disso, a versão traduzida, para se tornar um livro, tinha que ser copiada. E na quantidade em que era encomendada. Supondo que os potenciais leitores que encomendassem a obra fossem cinqüenta, por exemplo, era esse o número de cópias que teria que ser feito. Portanto, o mesmo risco que o livro original corria, de sofrer “transformações” indesejadas, de um volume para outro, as traduções corriam. E, para piorar, acrescido dos possíveis equívocos do tradutor. Ademais, as traduções não eram feitas diretamente dos originais do autor. Não raro, o eram de cópias de cópias de cópias de cópias, cada qual com seu conjunto de lapsos e de alterações.

Ainda assim, não deixam de ser admiráveis as idéias de Platão (e esse sequer era seu verdadeiro nome, mas um apelido que pode ser interpretado como “pseudônimo”, com o qual se tornou conhecido para a posteridade). Com todas as deturpações que possam ter sofrido (e que, pelos motivos expostos e por tantos outros que não expus, certamente sofreram), o “conteúdo” chegou até nós razoavelmente intacto. E não há dúvidas que é genial, levando-se em conta a época em que o filósofo escreveu seus livros. Já o nome verdadeiro de Platão, para os que desconhecem esse detalhe, era Aristocles. Recebeu o apelido, com o qual ficou conhecido através dos séculos, por causa dos seus “ombros largos”, que é o que o pseudônimo adotado significa. O genial discípulo de Sócrates era um homem robusto, de porte atlético, forte e saudável, tanto que viveu até os oitenta anos, numa época em que uma pessoa de 40 já era considerada “velha”.

Aliás, sua morte – caso não se trate de lenda, nunca se sabe – foi tão inusitada como tudo o mais a seu respeito que chegou até nós, homens do século XXI. Ocorreu em uma festa, sem aviso e sem alarde. Enquanto a festança rolava solta, Platão afastou-se dos convidados para um canto isolado da casa e… dormiu. Ninguém estranhou e nem se incomodou com isso. Só foram perceber que seu sono era o “eterno”, quando foram acordá-lo, na manhã do dia seguinte. Consta que seu sepultamento foi grandioso e que seu corpo foi conduzido ao túmulo acompanhado por uma desolada multidão de atenienses. Teria, mesmo, acontecido assim? Vá se saber! Na impossibilidade de confirmação ou de desmentido, essa é a versão que ficou, e que, certamente, ficará para “sempre”. E mesmo esse “sempre” tem que ser encarado com absoluta relatividade, concordam?.

Por: Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”, “Cronos e Narciso” e “O país da luz”.
E-mail: pedrojbk@bestway.com.br
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