Professores dão aula de bermuda no Pedro II devido o calor forte



     
O professor Eduardo Vicente em sua primeira aula usando bermuda no Pedro II
Foto: Arquivo Pessoal
Por causa do calor do verão carioca, colégio liberou uso da peça para alunos e docentes pela primeira vez em 176 anos de história

                  Por: Eduardo Vanini
A primeira vez a gente nunca esquece. Esta foi a sensação do professor de Matemática Eduardo Vicente ao lecionar sua primeira aula usando bermuda no Colégio Pedro II, na última semana. O episódio teve direito a foto postada no Facebook e uma enxurrada de comentários positivos. A escola federal liberou temporariamente o uso da peça durante este verão, em função das altas temperaturas. Até então, isso era impensável na tradicional instituição de 176 anos.


- Estamos nesta luta há muito tempo. Pior que a dominação econômica, é a cultural. Vivemos num país tropical, mas ainda usamos roupas do colonizador europeu - observa o professor, que atua no Campus São Cristóvão III.

Eduardo deseja agora que a medida passe a valer para o ano inteiro e até mesmo um uniforme alternativo seja criado para os alunos. Para ele, a ideia da bermuda precisa ser encarada como uma questão de saúde.


- Temos estudantes de todas as partes da cidade. Imagina um aluno que vem de Bangu e precisa enfrentar transportes coletivos precários nesse calor? - questiona o professor, para quem o hábito deveria se espalhar pela cidade. - Obrigar um advogado a trabalhar de terno e gravata num calor de 40 graus é o mesmo que forçar alguém a ficar de sunga no inverno europeu.


A foto foi postada no primeiro dia de liberação das bermudas no colégio, 10 de fevereiro. Em menos de uma hora, a imagem já reunia 200 curtidas. Para o professor, se houve tamanha repercussão, é porque muita gente se identifica com a causa. Por isso, no próprio post, ele aproveitou para fazer um apelo aos seguidores: “Temos que lutar para que todos e todas usem roupas adequadas ao nosso clima.”


O uso de bermudas está permitido para alunos até 30 de março e para servidores até 31 do mesmo mês. As bermudas dos alunos deverão seguir o padrão do uniforme de educação física. O reitor do colégio, Oscar Halac, justifica a iniciativa:


- Adotei a medida por sensibilidade térmica mesmo, já que tínhamos uma temperatura sentida de até 50 graus na cidade. O que é tradicional no Pedro II é o trabalho do seu professor e do seu aluno. Não é a deliberação do uso de uma peça mais leve que vai ferir a qualidade desse trabalho. Não podemos mais imaginar que a indumentária caracteriza a seriedade de um indivíduo - diz.


A permissão do uso da peça em ambientes onde tradicionalmente não era liberada ganhou visibilidade ao longo dos últimos meses no Rio, quando os termômetros marcaram os 40 graus e uma longa estiagem ampliou o desconforto térmico. Além de colégios, órgãos públicos municipais e instituições como a Biblioteca Nacional aderiram ao uso das bermudas para funcionários. O próprio professor Eduardo Vicente mantém uma petição on-line “Bermudas já”, em que defende a expansão do uso da peça nas instituições públicas de ensino de todo o estado do Rio.

O Globo



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