Capitalismo e o espírito Protestante



 Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) pergunta:        Por: Fernando Nogueira da Costa

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular” que cuida da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

Para Freud, a religião não poderia ser a força por trás das conquistas da Civilização Ocidental porque era, essencialmente, uma ilusão ou uma neurose universal, concebida para evitar que as pessoas dessem vazão a seus instintos básicos, em particular, seus desejos sexuais e impulsos violentos e destrutivos. Sem religião, haveria o caos, porque não haveria a conformidade com a desigualdade social e/ou a linha de produção alienante. A religião não só proibia a promiscuidade sexual e a violência desenfreada. Também conciliava os homens com a crueldade do destino mortal e os sofrimentos e as privações da vida cotidiana. Freud tinha pouca esperança de que a humanidade pudesse se emancipar totalmente da religião, menos ainda na Europa.


As religiões políticas totalitárias, como o fascismo italiano, o nazismo alemão ou o stalinismo soviético, foram incapazes de controlar os instintos primitivos descritos na Teoria da Religião de Freud. A reação inicial face ao estupro e ao assassinato em massa, ocorridos na II Guerra, foi restaurar a religião real para usar seus confortos tradicionais na lamentação das violentações e dos mortos.


“Nos anos 60, entretanto, uma geração jovem demais para se lembrar dos anos de genocídio e guerra total procurou uma nova saída pós-cristã para seus desejos reprimidos. As próprias teorias de Freud, com sua visão negativa da repressão e sua simpatia explícita pelo impulso erótico, sem dúvida foram parcialmente responsáveis por incitar os europeus a saírem das igrejas e entrarem nos sex shops” (2012: 318).


Os anos 1960 abriram caminho para uma anticivilização pós-freudiana, caracterizada por uma celebração hedonista dos prazeres individuais, uma rejeição da teologia em favor da pornografia e uma renúncia da Paz virtual em favor de filmes e videogames ultraviolentos. Ocorreu uma “banalização da guerra”.


Cabe o dualismo simplista para explicar uma hipotética divisão da Civilização Ocidental a leste com uma Europa sem deus e a oeste uma América temente a deus? Ferguson revela que nos Estados Unidos todas as inúmeras igrejas estão envolvidas em uma competição acirrada por almas. Antes, os indivíduos competiam uns com outros para mostrar quem era verdadeiramente devoto. Hoje, a competição entre igrejas é tão intensa que incorporaram uma mentalidade comercial para atrair e manter fiéis. O Espírito Santo se mistura ao espírito do capitalismo quando passam as caixas de coleta de dízimo ou esmola…


A principal diferença entre o protestantismo europeu e o norte-americano é que, enquanto a Reforma foi nacionalizada na Europa, com a criação de igrejas estatais, nos Estados Unidos sempre houve uma separação estrita entre a religião e o Estado laico, permitindo uma competição aberta entre várias seitas protestantes. Na visão neoliberal de Ferguson, “essa talvez seja a melhor explicação para a estranha morte da religião na Europa e seu vigor permanente nos Estados Unidos. Na religião, assim como nos negócios, os monopólios estatais são ineficientes. (…) Em geral, a competição entre seitas em um mercado religioso livre encoraja as inovações concebidas para tornar mais gratificante a experiência do culto e da filiação à igreja. É isto o que mantém viva a religião nos Estados Unidos”. Os shoppings religiosos com shows de música (e consumismo alimentar) que dão satisfação à comunidade!


O problema é que a transformação da religião em uma satisfação na busca por lazer significa o afastamento dos norte-americanos da versão weberiana da ética protestante em que a gratificação adiada era o corolário da acumulação de capital. Ferguson acredita que “a redução da poupança se revelou uma receita para crise financeira. (…) Foi uma crise provocada no mundo ocidental em consequência do excesso de consumo e do excesso de alavancagem financeira”.


Ferguson continua, assim, acreditando no mito da Poupança, divulgado pela Economia Normativa Religiosa. Acha que “no Oriente se poupa muito mais que no Ocidente. (…) O que é menos observável é que o aumento da poupança e dos negócios na Ásia veio de mãos dadas com o efeito colateral mais surpreendente da ocidentalização: o crescimento do cristianismo, sobretudo, na China”.


Esse reducionismo é um absurdo, pois deixa em segundo plano a execução de todos os planos estatais do Socialismo de Mercado! Ignora desde as reformas de Deng Xiaoping até os investimentos diretos estrangeiros com transferência de tecnologia como contrapartida do acesso ao gigantesco mercado interno chinês! Além disso, na China, há larga predominância do ateísmo ou do confucionismo face à pequena parcela da população protestante. The World FactBook da CIA informa as seguintes religiões entre os 1.355.692.576 chineses: Budistas, 18.2%; Cristãos, 5.1%; Muslim 1.8%; Regionais < 1%; Hindu < 1%; Judaica < 1%; outras, 0.7% (inclusive taoístas); não filiados a nenhuma igreja: 52.2%, pois o Estado chinês é, oficialmente, ateísta.


Não. Nem os Estados Unidos entraram em crise por excesso de crédito para satisfazer o consumismo, nem a  China cresceu por causa da religiosa poupança

Por: Fernando Nogueira da Costa é Professor Livre-Docente do IE-UNICAMP. Autor do livro “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/  E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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