"Flexibilidade"

Resultado de imagem para cerebro desenhado fotosFlexibilização da inteligência

“Flexibilidade” é a prerrogativa para não se aplicar as disciplinas mais importantes na formação do indivíduo. Gestores e burocratas deveriam ser educados para reconhecer na Filosofia o berço da civilização ocidental.
Mais do que isso, seria insano por parte do “Estado” empoderar um povo de senso crítico. Porque esse povo poderia se rebelar contra essa mesma instituição fascista. Assim, o que deveria ser obrigatório – ensino de Sociologia e Filosofia – torna-se flexível. Quase opcional.
Retroagimos: no regime militar, a Educação Moral e Cívica era obrigatória e cínica. Com sua dedicada desinteligência e cognição negativa, atendeu aos interesses do mercado, do Estado Militar e dos EUA. Crianças eram ensinadas a colar figurinhas com a bandeira nacional abraçada à estadunidense.
Esta clausura de significados reais foi removida dos conteúdos curriculares a partir da redemocratização. Chegada a Constituição Federal de 1988 parecia que teríamos novos tempos.

O que se viu, entretanto, foi FHC desregulamentar a profissão de sociólogo. Como Cientista Social atirava no próprio pé, ao rejeitar ao desinteresse sua formação. Para quem foi educado por Florestan Fernandes – mago das Ciências Sociais –, carece de explicação plausível.
Com este revés, Filosofia e Sociologia só seriam incorporadas à educação formal nos governos petistas. Mas a formação de jovens dotados de categorias analíticas, críticas e reflexivas duraria pouco.
Em 2016, o Governo Temer, que teve assunção ao poder no golpe institucional, revogou a obrigação de formarmos jovens capazes de pensar por si.
Temer foi beneficiado pela ditadura de 1964. Aprendeu pra que serve o Estado nas lições de educação imoral e cínica, e em 2016 decretou o pensamento com bom senso uma mera opção.
A formação de massa crítica, com conteúdo tecnológico e menos dependência de performance e marketing, foi o motor que levou os países subdesenvolvidos a conhecerem outro patamar civilizatório.
Hoje, negando-se o direito à dialética – o Princípio do Terceiro Excluído –, enganamos o povo e negamos o óbvio. De nada adianta ensinar matemática e português, para livre expressão com lógica e coerência, se não há compreensão do que se fala ou faz. Não há isonomia (igualdade basilar) sem isegoria: capacidade de articular significados relevantes à vida pública.
Na prática, não há realismo se a lógica está desconectada da crítica. No fundo, como epistemologia, pensamento científico, a lógica é crítica. A lógica nos leva à ironia; o senso comum e a hipocrisia vão direto ao cinismo.
Uma ciência sem crítica, por exemplo, foi a nazista.
Com esta mudança de 2016 flexibiliza-se o certo e o errado, o ser e o não-ser, porque sem condições de viver na sociedade de risco e reflexiva o indivíduo não é cidadão.
Sem capacidade de pensamento analítico, o indivíduo é condenado a consumir informações sobre todos os males da modernidade; mas, sem saber do que se trata, rumina sem digerir.
Esta mudança, rumo à anencefalia coletiva, realmente aplicará a tese do filósofo renascentista Francis Bacon: Saber é Poder.
Jovens educados, com saber científico, com reflexão e crítica, teriam o poder para mudar a política plutocrática desse país.
Porém, não será nesta quadratura. Desde o dia 13/12/2016, somando-se a PEC 55, decretou-se 20 anos de retrocesso nacional.
Aliás, estas alegações já estão certificadas no ranking mundial da ignorância acerca de si mesmo (Veja aqui). Em sexto lugar, logo atrás dos EUA, com estudos facultativos da realidade, logo mais avançaremos à cabeceira.
Em outro exemplo simples, perguntemos aos plutocratas – governantes brancos, ricos e envelhecidos – qual é o pecado venial da miscigenação. Primeiro, explique-se o que é venial. Depois, o que é miscigenação. Por fim, qual a relação entre ambos?
Dessa cortesia histórica da escravidão, “o estupro das mulheres negras e indígenas”, resultou a tal “cordialidade” e o jeitinho brasileiro. Mas, nunca nos esqueçamos, o pecado branco está na origem do ovo da serpente.
Infelizmente, para nós, a formação de cérebros não entra mais na conta do Produto Interno Bruto.
**Artigo escrito em parceria com Claudenice Frocel, Bacharel em Ciências Sociais, é Técnica em Segurança do Trabalho.
*Vinício Carrilho Martinez é professor da Universidade Federal de Rondônia/UFRO Departamento de Ciências Jurídicas. Doutor pela Universidade de São Paulo.
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