No escuro da noite...

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E se a noite chegar sem nenhum sonho em nosso coração, nenhum alento em nosso peito, não demos o dia como perdido. Ó não. Busquemos o sonho onde ele costuma vicejar. Tentemos encontrar alento onde brotam esperanças. Onde?
Também quero descobrir a morada dos sonhos. Lá vivem as lutas apaixonadas, a grandeza das atitudes, as rosas vermelhas, as fábulas e as ilusões. Alguém me escreve afirmando que “a vida não passa de uma ilusão.” Pode ser uma inferência precipitada, fruto de alguma decepção. Solidária, respondo que, a despeito de tudo, a vida guarda coisas preciosas.
Não sei o que é mais onírico: a esperança ou a ilusão. Ambas são denunciadoras de um estado de felicidade incompreensível para quem não as vive com a devida intensidade. Embora “felicidade” seja algo muito particular, com diferentes definições que variam de pessoa para pessoa, há um conceito geral do que seja ser feliz.
Mesmo nesta geral constituição do estado de felicidade, vemos que se pode ser feliz com pouco. Li uma frase recentemente, a respeito de quem tem tudo, mas sente falta de algo maior, de paz interior, de uma riqueza imaterial. Do outro lado da vida, há os que têm tão pouco, tão pouco e, no entanto, nada lhes falta, nem mesmo o sorriso no rosto, a paz e a alegria da alma.
Mas se a noite chegar sem que estejamos em paz, sentindo-nos devedores de algo a alguém, seja uma palavra, um gesto, uma visita, guardemos a falha em nosso coração. A própria noite nos revelará como agir, o que fazer e o que pensar.
Pensar com o coração, eis o segredo de tudo. Rezar com o coração, eis a oração mais bela. Agir com o coração, eis o ato mais humano e mais legítimo, que dificilmente causará algum tipo de engano. Ninguém se sentirá mal, ninguém achará que magoou alguém, se agiu com a retidão da alma e do afeto.
Penso que ilusões e esperanças sempre povoarão nosso ilustre sonho. Por mais utópico se configure, por mais distante seja a praia deserta onde gostaríamos de aportar. Para ali habitar com o movimento das ondas e das marés, a paz das conchas, a ovulação dos peixes, o vento maravilhoso para secar o cabelo ao sol. A terra da felicidade.
Mas para tanto é preciso saúde. Saúde do corpo, uma coluna forte e pés para caminhar pelo mundo. Quem tem um sonho tem toda a vida pela frente. Quem tem um sonho viverá eternamente. Se a noite chegar sem nenhuma doçura, lutemos para encontrá-la, ainda que debaixo do nosso amado e santo travesseiro.
Não há hora melhor para sonhar e mexer com a fantasia que nos habita deste sempre. Antes de conciliar o sono, as imagens maravilhosas se formam diante dos nossos olhos fechados. Desta forma, sem enxergar nada, vislumbramos a beleza. E assim, adormecemos sonhando a vida.
Se a noite chegar sem nenhum sonho, eu sinto muito, e sofro ao escrever isso. Porque é triste demais ir dormir sem um sonho. Sem uma esperança. Sem uma ilusão.
Por mais humilde seja, não deixemos morrer no peito aquele anseio pequenino, a graça da vida, a razão da nossa luta. Às vezes, não ter um sonho dói tanto, tanto, que é preciso tê-lo, só para não sofrer.
*Marisa Bueloni mora em Piracicaba, SP. Formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras – marisabueloni@ig.com.br
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