Retrato da vida

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Havia nela um precioso universo de coisas e delicadezas. Cabia em seu semblante uma coleção completa de xícaras caipiras em relevo de rosas e casinhas do campo. De seus braços pendiam caminhos de mesa rendados e blusas bordadas com a beleza do sol. Cada ponto, uma cruzinha detalhada em ouro.
Havia nela algo que conspirava, transpirava suavemente, um arfar de anseios em favor de coisas como ética, justiça, esperança. Com a fronte abaixada, inspirava um quê de anunciação. O anjo a espiar-lhe de longe, invejando sua humanidade.
Quem a olhasse de repente, não a veria. Diáfana, exaurida de tanto suspirar. O coração arrancado do peito, a alma dilacerada de sonho. Cansaço de quem tenta o acerto possível. Se falasse, desejaria ser a voz do tempo no ouvido da Terra. Se calasse, almejava competir com o silêncio mais longo e doloroso de todos. Talvez aquele diante da morte.
Todo o Natal estava dentro dela, e de suas palavras brotou um doce presépio, esperando o nascimento do Menino. Um pouco antes de o Menino nascer, uma pedra pesadíssima desabou sobre ela. Não a esmagou por Deus.
Contornou a pedra com graça, esperou pelo sino da manhã, e sorriu para a montanha que pairava ameaçadora. De lá, deslizaria uma segunda pedra, um pouco antes da noite de Ano Novo. Recebeu o impacto com lágrimas e perguntou: por quê?
Não há resposta para quem no coração cultiva algumas emoções como o primeiro ano escolar, a marcha das formigas até o pedaço de bolo, o compartilhamento de um segredo, a compreensão do Teorema de Pitágoras, a chuva, as estrelas, café, o pão com manteiga e todo o resto. E a dor.
A dor, velha amiga. Seu retrato mais precioso. Nas lembranças, a superação da dor. Cenas se misturando no corredor escuro da memória. Era preciso um esforço sobre-humano para entender o que estava acontecendo. Sim. Não.
Numa noite de chuva, abraçada ao travesseiro perfumado, era a princesa de um conto de fadas sem o previsível final: ninguém jamais saberia se foram felizes para sempre. Envelhecer era parte de uma aventura maravilhosa, o corpo pedindo paciência. Para que pressa, afinal?
Sonhou que haveria um passeio de mãos dadas à beira-mar. Uma carta de amor. Um olhar. Uma rosa jogada na soleira da porta. Um brinde a dois. Todo um outono em cânticos. Um piano. Uma música para dançar. A visão do céu.
Acordou. Ó que retrato digno o espelho lhe mostrava todas as manhãs. Imagem de força, integridade, honra. A idade revelada, claro, não havia nada a esconder. Havia nela uma bondade moral, nenhuma preguiça e a graciosa luta para sobreviver bem.
Uma vastidão de doçura e carinho a cobria dos pés à cabeça. Emanava dela a maresia do verão. Tanto mar, tanto mar! E se afogou em lágrimas, as pedras se diluindo no champanhe sem álcool.
Havia nela o amor. Meio fora de moda? Abrira a porta para ele, deixara entrar o canto do rouxinol, da cotovia, do sabiá. Inda há de ouvir cantar.
Sim, havia algo nela. Mas ele não viu.
*Marisa Bueloni mora em Piracicaba, SP. Formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras – marisabueloni@ig.com.br
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