Esquecimento

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O esquecimento é algo traiçoeiro e nos faz passar, muitas vezes, por dissabores, vexames, chateações e constrangimentos. Esquecer a data de aniversário da esposa, por exemplo, ou a do casamento, provoca, não raro, imensas tempestades domésticas que, em alguns casos, resulta, até, em separação. A mulher, via de regra, considera isso imperdoável heresia. Há, é verdade, as que não ligam, ou fingem não ligar. Essa, contudo, convenhamos, não é a regra.
Outro esquecimento potencialmente danoso é o de algum compromisso marcado, profissional ou meramente social, não importa. No primeiro caso, pode resultar até num “bilhete azul”, ou seja, em sumária demissão. No segundo, a perda de amigos e de prestígio. Para evitar esse tipo de mancada, existem as agendas. Todavia, alguns desmemoriados esquecem-se, também (ou principalmente) delas, ou pelo menos não se lembram de consultá-las. Aí… não tem remédio!
O esquecimento, porém, nem sempre é fruto da falta de memória. Em boa parte dos casos, é provocado por afobação, correria, falta de organização etc.etc.etc. Há pessoas que vivem correndo, como se o mundo fosse acabar em cinco minutos. Nessa pressa toda, esquecem, por onde passam, documentos, óculos, chaves do carro, guarda-chuvas, enfim tudo o que carregam consigo.
Caso sintam a falta, nas proximidades de onde deixaram esses objetos, tudo bem. É só dar a meia volta e retornar ao local. Quando não… Passam por uma série de dissabores, perfeitamente evitáveis. E perdem exatamente o que mais pretendiam ganhar: tempo. Bem diz o povão que “devagar também é pressa”.
Alguns esquecimentos, no entanto, são muito mais constrangedores do que os que citei. Diz a lenda (e não tenho como comprovar sua veracidade), que o genial filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson, quando estava bem velhinho, passou a ter alguns lapsos de memória. Fazia tudo o que citei. Ou seja, esquecia compromissos, deixava coisas que estivesse portando nos lugares por onde passava etc.
Certa ocasião, um seu admirador (e bastava ler seus livros para admirá-lo de imediato), quis conferir se Emerson tinha ou não perdido sua privilegiada memória. Apresentou, ao filósofo, um magnífico texto que este havia escrito há alguns anos, extraído de um de seus tantos livros, e lhe pediu que opinasse a respeito.
Este leu o trecho solicitado com a maior atenção e concentração, pôs a mão no queixo, olhou para os lados, parecendo um tanto confuso e disse, constrangido, ao interlocutor: “Que peça maravilhosa! Que clareza de idéias! Quanta concisão e sabedoria! Eu gostaria de ter escrito esse texto!”. Emerson não identificou, portanto, uma das suas peças filosófico-literárias mais originais, marcantes e fundamentais (a que tratava dos ideais).
Não reputo isso, porém, como falta de memória. Fato idêntico já ocorreu comigo (e olhem que tenho fama de contar com uma capacidade de retenção de informações que rivaliza com o HD do mais potente dos computadores, de trocentos gigabytes de capacidade, sem nenhum exagero).
Ocorre que quem tem produção bastante farta, por mais que tente, nunca vai se lembrar de tudo o que escreveu. Pode identificar o estilo, claro, mas existe sempre a possibilidade (posto que remota) de que outra pessoa o tenha igual. Pode reconhecer o tema tratado, o que não quer dizer nada. Mas não pode jurar sobre a Bíblia que determinado texto é de sua autoria (embora, de fato, seja).
Essa questão do esquecimento, portanto, deve ser tratada com bastante cautela. Cada caso é um caso. O ensaísta norte-americano, Henry David Thoreau, escreveu, a respeito, em um dos seus tantos memoráveis ensaios: “Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor”.
Não é porque você esqueceu a data do seu casamento (e pagou o preço por isso), ou não lembrou daquele encontro com os amigos na casa do Zé, que deve se desesperar e sair por aí comprando todos os produtos à base de fósforo que encontrar na farmácia do bairro. Muitos fazem isso e não melhoram, claro.
Seus esquecimentos não têm componentes físicos, mas, apenas, comportamentais. São desorganizados, afoitos, agitados e fazem tudo, tudo na correria. O remédio para estes é simples e barato: organização, planejamento e autodisciplina. Essas coisinhas fazem milagres para a memória, muito mais do que qualquer preparado à base de ginseng (embora estes sejam úteis e recomendáveis para a saúde em geral). É preciso que ouçam sempre o mesmo tambor da maioria, para que possam marchar no mesmíssimo compasso.
*Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”“Cronos e Narciso” e “O país da luz”.
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