Ao percebermos que a sorte não é uma aventura tão casual quanto se
poderia esperar, aprendemos a lidar com a vigilância. O acaso disfarça
nossa
Por: Bruno Peron Loureiro
É a consciência que se tem do alcance do pensamento e da ação.
Primeiramente, temos que estar cientes de que pensar é uma forma de exercer
a vontade, moldar as energias e pavimentar caminhos. O pensamento
prescreve a ação, embora nem sempre aquele lance mão da vigilância.
Contudo, esta não nos põe numa posição defensiva senão de fidelidade a
responsabilidades e de compromisso com a serenidade.
Farei uma interpretação tomando como tipos a vigilância privada e a pública.
A primeira refere-se a inquietações emocionais e particulares de cada
indivíduo. É muito comum a instabilidade das emoções quando não se tem
experiência em algo, num conflito ou litígio, diante de um susto, no
cometimento de excessos (comida insalubre) e desgastes (sobrecarga
física), no transporte urbano (ônibus lotados, trânsito infindável), e
na iminência de receber atos violentos. A vigilância privada requer que
tenhamos ânimo para domar nossas instabilidades emotivas.
Por sua vez, a vigilância pública é um tipo que nos afeta como seres
sociais em vez de seres individuais. Dou o exemplo de nossa invigilância
no manejo da informação que nos chega pelos meios eletrônicos de
comunicação (Internet, televisão, rádio, etc.). No menor descuido do bom
senso e da razão, transformamos mentiras em verdades, inconvenientes em
catástrofes, boatos em fatos.
Quero deter-me um pouco mais na vigilância pública.
Frente ao debate sobre a aprovação ou a reprovação de invasão militar
de alguns países ocidentais à Síria, hesito sobre como exercitar a
vigilância pública. Uma opinião bem fundamentada e uma decisão bem
tomada exigem a compilação da maior quantidade e diversidade possíveis
de informação. Vigilar, neste caso, não é uma atitude-referendo de dizer
sim ou não, mas uma prática de compromisso coletivo. A proposta da
vigilância pública transcende a individualidade.
Não vigiamos somente a nós mesmos, más a nós e a outrem. Ao mesmo
tempo, devemos compreender que os outros movem-se por sua crença e
racionalidade, seus ajustes peculiares de vigilância. Deste modo, não
adianta oferecer aos sírios aquilo que serve ao Ocidente (democracia,
liberdade, gasodutos, etc.) porque seu método de vigia é distinto. Daí o
fracasso cultural da política exterior dos Estados Unidos, que abusa da
vigilância pública ao policiar o mundo e promover a mentira.
Por isso, o redimensionamento fantasioso dos espaços públicos
(pensemos nos programas de rádio e televisão, nas redes sociais virtuais
e nas agências de notícias a favor da desinformação) aumenta os
desafios da vigilância. Não basta aprimorar nosso preparo para a
vigilância pública enquanto nos alimentamos mal ou permitimos que
pensamentos negativos arruinem nosso dia; nem ter emoções equilibradas e
comedimento nas palavras enquanto consentimos com um aumento dos gastos
militares dos países ocidentais visando a confrontos injustificados.
Permanece a curiosidade sobre o que realmente está acontecendo no
Oriente Médio e o convite a vigiarmos sem censura a nós mesmos. Já que
Estados Unidos e França são tão generosos ao proteger as crianças contra
armas químicas na Síria – se é que estas se usaram – poderiam também
ajudar-nos a reduzir a miséria e a violência na América do Sul, onde as
estatísticas da morte não lhes interessam. Há uma generosidade oculta a
favor do imperialismo da qual não fala John Kerry.
Tanto a vigilância privada como a pública carecem de sentido fora da
consciência. Estejamos atentos aos liames que nos integram como
indivíduos aos seres sociais.
Por: Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos pela FFyL/UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México). http://www.brunoperon.com.br
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