Ver os filhos longe da sala de aula e estudando diariamente em um cômodo da casa em tempos de restrições de aulas presenciais por conta da pandemia é uma deixa para que se comece a confundir ensino remoto com ensino domiciliar – ou homeschooling –, modalidade de ensino em que as famílias assumem a educação formal das crianças, sem qualquer vínculo com a escola. Os limites ficam mais frágeis diante da realidade da educação brasileira, em que boa parte das instituições, principalmente as públicas, não oferece lições com professores por videochamada, o que distancia o aluno da noção de escola e demanda dos pais maior envolvimento para que o aprendizado prossiga mesmo durante a pandemia.
A impressão pode ser a de que as famílias ficaram encarregadas da tarefa que era do professor, e a escola, fechada, ficou em segundo plano. Entender que o país vive uma crise sanitária e que as aulas em casa são uma medida emergencial para conter o avanço do coronavírus é a primeira ressalva. A segunda é que o ensino remoto é algo inédito na educação brasileira, algo aprovado às pressas, ainda em construção e com problemas diversos, como falta de acesso a ferramentas básicas.
— O ensino remoto vem sendo utilizado aos “trancos e barrancos”. Temos uma parcela enorme da população que não possui as condições necessárias para acesso ao conteúdo porque falta computador, internet, um ambiente adequado para o estudo, faltam condições de vida para poder priorizar as aulas — diz Andreia Mendes dos Santos, professora do curso de Pedagogia e da pós-graduação em Educação e em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Para a especialista, a experiência do ensino remoto, imposta e autorizada frente à emergência da pandemia, nem de longe se aproxima de um novo modelo de educação:
— Não tínhamos, até o momento, nenhuma diretriz que previsse tal fenômeno. Estamos há mais de um ano na busca de uma fórmula que dê certo. Nossa maior vitória, o que ainda justifica o modelo remoto, é o fato de salvarmos vidas.
Sem autorização no Brasil, o homeschooling, por outro lado, é quando as famílias têm autorização do Estado para passar todo o conteúdo formal para as crianças, que sequer frequentam um ambiente escolar. Ainda assim, existe um projeto pedagógico elaborado pelos pais ou familiares responsáveis, um cronograma organizado com uma finalidade. Países como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, França e Portugal permitem o ensino domiciliar, com avaliação anual dos alunos que estão em casa.
— O homeschooling tem um projeto, uma proposta estruturada. Traz uma proposta pronta de aprendizagem que será desenvolvida em casa — reforça a doutora em Educação e professora associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Gládis Kaercher.
Para especialistas, as famílias têm o poder de educar seus filhos com valores morais que considera importantes, mas não o de escolarizar, que vai além de passar o conteúdo de uma determinada disciplina. É na escola que a criança socializa com o mundo e amplia seus conhecimentos, construindo noções de comunidade e de nação. É no encontro com professores e colegas que depara com opiniões diferentes das que ouviu em casa, que enxerga outras perspectivas.
— Exemplo banal: na minha casa, a gente escuta música clássica. Mas o que será do meu mundo se eu passar pela vida sem conhecer os outros ritmos? Essa é a função da escola: ampliar repertório, ensinar a conviver com o contraditório, com a negação. Na escola, a gente aprende a ceder às escolhas da maioria. Do meu ponto de vista, a escola é um exercício de democracia fundamental para qualquer nação — reforça Gládis.
Para que a criança mantenha um vínculo com a escola mesmo estudando em casa, a recomendação é avisar o professor diante de qualquer dificuldade do filho. Pais até podem tentar explicar o conteúdo que ficou difícil, mas sem se apropriar de uma didática e substituir os papéis – o que pode evitar estranhamentos quando chegar a hora de voltar para a sala de aula.
A escola também deverá fazer sua parte quando o retorno for autorizado, provendo adaptações nos currículos para reforçar ou mesmo rever o que foi visto durante o distanciamento.
— Aquela criança que ficou em casa vai trazer marcas desse processo. O segundo, terceiro, quarto ano dessa criança não será o segundo, terceiro ou quarto ano normal. A escola terá que fazer um mapeamento do que foi aprendido durante a pandemia e retomar tudo isso. As crianças que foram alfabetizadas pelos pais têm dificuldades com o processo da escola, terão entraves lá na frente. A gente sabe que as famílias ficam ansiosas, mas é necessário entender que o mundo inteiro está passando por esse momento. Todas as crianças estão passando por um ano atípico. A família deve ficar muito mais voltada a acolher os filhos — orienta Andreia.
Diante da imprevisibilidade de uma crise global, cobranças por desempenho e boas notas podem ser suavizadas.
— A gente não pode querer desempenho idêntico ao de antes, como se a vida estivesse igual. Desejo que essa experiência (de ensino remoto) possa mudar a relação entre as famílias e as escolas — reflete Gládis.
por KARINE DALLA VALLE, original do GZH
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