Todos os anos, o Brasil assiste a um verdadeiro espetáculo midiático após a divulgação dos resultados do ENEM. Estudantes aprovados em Medicina tornam-se protagonistas de reportagens em rede nacional, suas famílias organizam festas, carreatas, faixas, entrevistas emocionadas e homenagens públicas. O sucesso individual é celebrado como se fosse uma conquista coletiva da nação. No entanto, esse mesmo entusiasmo não se repete quando outros jovens são aprovados em cursos igualmente essenciais para a sociedade, como as licenciaturas e a formação de professores.
Por que o estudante que passa em Pedagogia, História, Geografia, Matemática ou Letras raramente vira manchete? Por que não há câmeras, aplausos e reconhecimento público para quem escolhe ensinar? A resposta revela uma hierarquia cruel de valores: no imaginário social brasileiro, o prestígio está ligado ao status financeiro, não à função social. A Medicina é exaltada não apenas por salvar vidas, mas pelo retorno econômico que promete. Já o magistério, embora forme todas as outras profissões, é tratado como opção secundária, quase um “plano B”.
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Essa lógica é reforçada por uma sociedade que consome títulos e ignora processos. O médico é celebrado no ponto de chegada; o professor, esquecido no ponto de partida. Ninguém chega à universidade sem antes ter passado pelas mãos de um professor da educação básica. Ainda assim, esse profissional permanece invisível, mal remunerado e desvalorizado, mesmo sendo o pilar de toda a estrutura educacional.
A responsabilidade por esse cenário também recai sobre a política brasileira — tanto da esquerda quanto da direita. Apesar dos discursos inflamados, nenhum dos lados demonstra compromisso real e contínuo com a valorização da classe acadêmica como um todo. Salvo raras exceções, o reconhecimento se limita ao professor universitário, enquanto o professor da educação infantil e do ensino fundamental segue lutando por salários dignos, condições mínimas de trabalho e respeito profissional. A educação é usada como bandeira eleitoral, mas abandonada na prática cotidiana.
O resultado é um país que celebra médicos, mas esquece quem os alfabetizou; que valoriza o diploma, mas despreza o giz; que aplaude o sucesso final, mas ignora a base que sustenta tudo. Essa inversão de valores compromete não apenas a educação, mas o futuro social e humano do Brasil.
Por isso, é necessário encerrar este debate com justiça. O professor da educação básica é um verdadeiro lutador. Enfrenta salas cheias, estruturas precárias, baixos salários e ainda assim insiste em acreditar em dias melhores. Ele educa, forma caráter, desperta sonhos e resiste. Seu trabalho não vira manchete, mas constrói nações. Valorizar o professor de base não é favor, é obrigação. Reconhecê-lo salarial e socialmente é o primeiro passo para um país mais justo, consciente e verdadeiramente educado.

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