Estudo identifica hiperconectividade cerebral como peça central da doença de Parkinson
A doença de Parkinson sempre foi associada principalmente a alterações nos gânglios da base e à perda de dopamina. No entanto, uma nova investigação científica sugere que o problema pode ser ainda mais amplo. Pesquisadores identificaram uma rede cerebral específica cuja desregulação parece estar no centro da condição, abrindo caminho para estratégias terapêuticas mais direcionadas e potencialmente mais eficazes.
O estudo foi publicado em 4 de fevereiro de 2026 na revista Nature, sob o título A doença de Parkinson como um distúrbio da rede de ação somato-cognitiva (DOI: 10.1038/s41586-025-10059-1), com autoria principal de Jianxun Ren e colaboração internacional envolvendo a Universidade de Washington em St. Louis e o Laboratório Changping.
O circuito que conecta pensamento e movimento
A pesquisa destaca a chamada rede de ação somatocognitiva, conhecida como SCAN, um sistema cerebral que integra planejamento mental e execução motora. Essa rede atua no córtex motor e participa da transformação de intenções em movimentos coordenados, além de monitorar a execução das ações.
Ao analisar exames de neuroimagem de mais de 800 participantes, incluindo pessoas com Parkinson e indivíduos saudáveis, os cientistas observaram um padrão consistente: pacientes apresentavam hiperconectividade entre a SCAN e regiões subcorticais, áreas relacionadas ao controle motor, emoção e memória.
Essa conexão excessiva parece desorganizar o funcionamento do circuito responsável por:
- Coordenação motora
- Planejamento de movimentos
- Processamento cognitivo
- Regulação de funções corporais
Isso ajuda a explicar por que o Parkinson vai além dos tremores, afetando também sono, cognição, digestão e motivação.
Hiperconectividade como marcador da doença
Um dos achados mais relevantes foi que diferentes tratamentos apresentaram melhores resultados quando conseguiam reduzir essa hiperconectividade anormal. Entre as abordagens analisadas estavam:
- Estimulação cerebral profunda
- Estimulação magnética transcraniana
- Ultrassom focalizado
- Tratamentos medicamentosos
Os dados indicam que restaurar um padrão mais equilibrado de comunicação entre a SCAN e o subcórtex está associado à melhora clínica.
Terapia de precisão mostra resultados promissores
Com base nesses achados, os pesquisadores testaram uma abordagem não invasiva utilizando estimulação magnética transcraniana direcionada especificamente à SCAN. Em um ensaio clínico inicial com 36 pacientes, metade recebeu estimulação personalizada na rede identificada.
Após duas semanas, cerca de 56% dos pacientes tratados diretamente na SCAN apresentaram melhora significativa, enquanto apenas 22% do grupo controle demonstraram resposta semelhante. Esse resultado sugere um ganho expressivo na eficácia quando o alvo terapêutico é definido com maior precisão.
Além disso, terapias não invasivas podem permitir intervenção em fases mais precoces da doença, ampliando o potencial de controle da progressão.
Uma nova visão sobre o Parkinson
Tradicionalmente compreendido como um distúrbio predominantemente motor, o Parkinson passa agora a ser interpretado como uma disfunção de rede cerebral ampla. Essa mudança conceitual pode impactar tanto o diagnóstico quanto o desenvolvimento de futuras terapias.
Embora mais estudos clínicos sejam necessários, a identificação da SCAN como eixo central da doença representa um avanço relevante na neurociência moderna. A descoberta reforça a importância de abordagens baseadas em conectividade cerebral para compreender doenças neurológicas complexas.
R7
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