Liberdade de propriedades privadas

Por: Rolando Nazarte
Uma das coisas das quais necessitamos nos libertar, é da propriedade privada. “A propriedade privada tornou-nos tão néscios e estúpidos que uma coisa somente é nossa quando diretamente a temos, quando a comemos, bebemos, vestimos, habitamos, usamos. Todos os sentidos espirituais foram alienados ao único sentido de ter. O ser humano devia ser reduzido a esta miséria, para dar a luz toda sua grandeza.”

São palavras de Karl Marx (foto) em um dos manuscritos econômicos e filosóficos de 1844. Não são palavras literais, mas o sentido é esse. Temos algo quando diretamente o comemos, bebemos, vestimos, habitamos, etc. Quando o usamos. Mas isto nos expropria da nossa capacidade de desfrutarmos das cosias de maneiras não apropriativas.

Eu posso desfrutar de um céu azul, do prazer se me sentir vivo, de perceber a continuidade do tempo, a continuidade da vida, sem me tornar proprietário nem do céu, nem do tempo, nem da vida. Ninguém pode se tornar proprietário destas coisas. Não é possível se tornar proprietário da vida ou do tempo. Vivemos, e isto é um transcorrer no tempo. Mas não podemos possuir o tempo.

Podemos nos tornar donos do tempo, mas isto não é uma apropriação privada. Podemos fazer nosso o tempo, mas isto não nos faz proprietários nem do tempo e nem da vida. A vida e o tempo são bens comuns, inapropriáveis de forma privada. Podem ser apropriados de maneira estética, artística, poética, sensitiva, imaginária, que são todas formas de apropriação comunal.

Toda pessoa pode e deve desenvolver formas não privadas de apropriação da realidade, como maneiras de se tornar dona dela mesma. A apropriação de si não é uma prisão, e sim, uma libertação. A pessoa se torna dona de si, quando se percebe como uma continuidade e um fruto de incontáveis esforços, próprios e alheios, da qual ela como totalidade, é resultado.

A pessoa se torna dona de si mesma, quando ela percebe que a sua vida não morre na morte, mas se perpetua de um dia para outro. Isto é descobrir a continuidade da vida, a continuidade do tempo. Isto é fugir do medo da morte, do medo da dissolução no nada. O dia começa e sinto uma alegria profunda. Todo meu ser se alegra quando começo a perceber que a claridade está chegando novamente ao céu.

E esta alegria não deriva de eu ser dono do dia, ou dono da vida. Não sou dono de nada, e ao mesmo tempo, sou dono de tudo que me foi dado. A vida me foi dada, mas eu não sou um proprietário dela. Sou apenas alguém que desfruta dela, desse dom, dessa dádiva, desse mistério inexplicável. Os dias vão passando, mas isto não fragmenta a minha existência. Eu sou uma unidade do tempo total da minha vida. Eu sou a reunião de todos os segundos, de todos os instantes, de todos os lugares, de todas as pessoas e experiências que me foi dado viver desde o começo da minha vida.
Mas nem sempre fui capaz de perceber esta unidade e continuidade. Já vivi no estranhamento, no dilaceramento, na ruptura, na divisão e fragmentação do tempo e da vida. Isso era o inferno. E sei que há muita gente que vive nessa dimensão alienada e dolorida da vida. Mas se pude ir voltando para a vida inteira, isto foi uma decisão própria, que me trouxe e continua a me trazer de volta cada vez que se reinicia o processo de estranhamento e alienação.

E as formas de me assegurar de que não irei retornar à alienação são várias: a integração em redes sociais, os projetos de vida, a esperança que me projeta de contínuo a tarefas plenas de significado, a oração, o serviço, o aprendizado na consciência de que somente há crescimento no coletivo, no grupal, no comunal, no comunitário, no social.

Texto publicado na(s) seção(ões) Brasil, Cidadania, Educação, Sociologia da revistaConsciencia.net.

Por: Rolando Lazarte, sociólogo, terapeuta comunitário, escritor. Primeiro Diretor de Comunicação Social da ABRATECOM – Associação Brasileira de Terapia Comunitária. Membro do MISC-PB. http://rolandolazarte.blogspot.com/
http://rolandolazarterapeutacomunitario.blogspot.com


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