Genealogia

Resultado de imagem para genealogia fotosComo se estudava genealogia no passado

Nas últimas décadas, em todo o Ocidente tem ocorrido um curioso fenômeno: a generalização do interesse pela Genealogia, pelo estudo das origens familiares. É um fenômeno de características próprias, muito diferente do que no passado entendiam e praticavam os cultores de estudos genealógicos.
Em livro recentemente lançado (“À procura de Tructesindo: Por que tanta gente hoje em dia pesquisa as próprias raízes?”. S. Paulo: Scortecci Editora, 2016) analisei as principais características desse fenômeno, que denominei “Neo-Genealogia”, para distinguir da Genealogia tradicional.
Os estudos genealógicos, no passado, eram basicamente:
1) ou de cunho religioso;
2) ou de cunho nobiliárquico;
3) ou se destinavam a assegurar a transmissão da propriedade.

Falemos das genealogias de cunho religioso: basta, no caso da nossa cultura ocidental, tão influenciada pela herança cultural judaica que impregnou o cristianismo, lembrar as genealogias bíblicas: Moisés, que sob inspiração divina redigiu o Pentateuco, os primeiros cinco livros das Sagradas Escrituras, talvez possa ser considerado o primeiro genealogista da História da Humanidade. Há, na Bíblia, extensos e pormenorizados registros genealógicos.
Não só entre os hebreus, mas entre os povos antigos em geral (pelo menos entre os que possuíam certo grau de cultura), eram muito frequentes tais registros. Egípcios, Romanos, Assírios, Caldeus, Gregos, Persas, sempre deram grande valor às estirpes, e na valorização dessas estirpes estava presente um elemento religioso mais preponderante ou menos, mas sempre constante e claro. O culto pela memória dos antepassados, reverenciados pelo que tinham sido e pelo que significavam para os seus descendentes, adquiria, o mais das vezes mesclado com um caráter um tanto supersticioso, um cunho de culto religioso. Isso era constante na Antiguidade.
A esse respeito, cabe lembrar aqui uma obra excelente, que em nossos dias vem sendo reapreciada devidamente: o clássico livro de Fustel de Coulanges, La Cité Antique (Paris: Hachette, 19ª ed., 1905), que recentemente tem sido publicado por diversas editoras brasileiras. Fustel de Coulanges mostra que tal era o respeito que entre os antigos se tributava aos antepassados que, quando alguém se afastava do torrão natal em demanda de novas terras, para fundar novas cidades, para constituir novas sociedades, novas comunidades políticas, era costume levar, num vasinho, um pouco de terra do local em que nascera e onde estavam sepultados os antepassados. Essa porção de terra, levada com respeito, era também com respeito depositada no local em que se erigiria a nova fundação, para que, de certa forma, pelo menos simbolicamente, fosse algo das cinzas dos antepassados que se transferisse para o novo local, e a continuidade daquela estirpe, na interpenetração profunda entre esses dois valores, a família e o torrão natal, fosse mantida.
As catacumbas romanas também têm origem, segundo teorias das mais categorizadas, nesse culto respeitoso dos antepassados – os Manes – (ao lado dos Lares e dos Penates). Como fizesse parte dos costumes que os membros de uma família fossem sepultados dentro dos limites do próprio lar, costumava-se escavar, dentro da urbe romana, por baixo das casas ou dos palácios, túneis em níveis diversos de profundidade, para, dentro dos limites da propriedade, sepultar os membros daquela gens. Cada família vivia, assim, no sentido mais estrito do termo, sobre um cemitério em que jaziam seus antepassados, sem sair dos limites territoriais do lar. Ao cabo de algumas gerações, inevitavelmente esses condutos subterrâneos se comunicavam uns com os outros, constituindo uma vastíssima rede de galerias que com o passar dos tempos perdeu a primitiva significação, mas na qual a Igreja perseguida, nos três primeiros séculos da Era Cristã, encontrou abrigo seguro (pois os pagãos conservavam um temor supersticioso de penetrar naquelas galerias escuras, e mesmo quando eles penetravam, os cristãos, que conheciam o mapeamento daquela cidade subterrânea, com relativa facilidade conseguiam ocultar-se), na qual sepultou seus mártires e que até hoje é visitada com comovida veneração por incontáveis peregrinos que acorrem à Cidade Eterna.
Fonte: “PAZ”
*Armando Alexandre dos Santos é professor universitário, jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
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