No dia 24 de agosto de 2014 completaram-se os 60 anos da morte do ex-presidente GetĂșlio Vargas (1882-1954). O polĂtico gaĂșcho, nascido em SĂŁo Borja (RS), encerrou sua trajetĂłria polĂtica dando um tiro no peito, no PalĂĄcio do Catete, no Rio de Janeiro, entĂŁo sede da PresidĂȘncia da RepĂșblica. Vargas foi o presidente que mais tempo ficou no poder, entre 1930 e 1945, e depois entre 1950 e 1954.
Por: Andréia Martins e Carolina Cunha
Com realizaçÔes e açÔes que fizeram dele um dos personagens mais controversos e importantes da histĂłria do Brasil, Vargas conseguiu cumprir o que escreveu em sua carta de despedida: “Deixo a vida para entrar na histĂłria”.
De olho neste legado, com ajuda do coordenador de História do cursinho do Objetivo, Daily de Matos Oliveira, listamos 7 temas que ilustram as principais realizaçÔes de Vargas no Brasil.
1. A inauguração do populismo no Brasil
O termo "populismo" se refere a uma forma de governar com uma influĂȘncia muita grande sobre as massas populares. A palavra jĂĄ foi usada para designar regimes de lĂderes na AmĂ©rica Latina como Juscelino Kubitschek (Brasil), Eva Duarte PerĂłn (Argentina), Evo Morales (BolĂvia) e Hugo ChĂĄvez (Venezuela).
GetĂșlio Vargas Ă© considerado o precursor e o maior exemplo do populismo no Brasil. Ele foi identificado como defensor das causas sociais e interesses nacionais, incorporando as massas urbanas ao processo polĂtico. Sua liderança carismĂĄtica, o culto Ă sua personalidade e o grande apoio popular fez com que ele ganhasse o apelido de “pai dos pobres”.
Segundo o professor, GetĂșlio inaugurou o populismo no Brasil. No entanto, Daily ressalta que ao mesmo tempo em que beneficiou os trabalhadores e camadas mais populares “ele foi um dos presidentes que mais beneficiou o empresariado brasileiro”. Foi dele, por exemplo, os primeiros usos das palavras ‘misĂ©ria’ e ‘pobreza’ em discursos polĂticos, hoje tĂŁo presentes nas falas de polĂticos.
2. O impulso ao desenvolvimento industrial
Antes do GetĂșlio, o Brasil era um paĂs majoritariamente agrĂĄrio e rural e depois passou a ser um paĂs industrial. A crise mundial de 1929 afetou a exportação agrĂcola do Brasil, principalmente a cafeicultura, base da economia nacional. Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a oferta de produtos industrializados e importados foi reduzida.
Para o paĂs ter mais autonomia, o governo interferiu intensamente na economia e criou uma sĂ©rie de medidas voltadas para o desenvolvimento da indĂșstria brasileira. Foi adotado o modelo de Substituição das ImportaçÔes e implantada a chamada indĂșstria de base, com infraestrutura que ajudariam outros setores industriais a se desenvolverem.
GetĂșlio criou empresas estatais em atividades estratĂ©gicas como siderurgia (Companhia SiderĂșrgica Nacional), mineração (Companhia Vale do Rio Doce) e geração de energia (Companhia HidrelĂ©trica do Vale do SĂŁo Francisco).
O professor ressalta ainda outra criação positiva do governo Vargas, que beneficiou indĂșstria, comĂ©rcio e o poder pĂșblico: o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica), criado em 1938. “Hoje Ă© praticamente impossĂvel imaginar a elaboração de projetos e programas sociais, por exemplo, sem recorrer aos dados e levantamentos do instituto. Talvez GetĂșlio, quando o criou, nĂŁo tivesse a dimensĂŁo de quanta utilidade essa ferramenta traria”.
3. O PetrĂłleo Ă© nosso
Um dos marcos do segundo Governo Vargas (1951-1954) foi a imposição do monopĂłlio estatal sobre a produção do petrĂłleo, considerada fundamental para o desenvolvimento da nação. A industrialização crescente aumentou a demanda por petrĂłleo. No Brasil, a produção e a distribuição dele eram controladas por companhias norte-americanas. Influenciados pela polĂtica nacionalista, setores da sociedade brasileira se mobilizaram para criar a campanha ‘O PetrĂłleo Ă© nosso’, contra a participação de empresas do exterior. Depois de muita polĂȘmica, em 1953, Vargas sanciona a lei que cria a Petrobras, que representava a independĂȘncia econĂŽmica do paĂs.
4. Consolidação das leis trabalhistas
“A relação entre o trabalhador e o Estado pode ser dividida em antes e depois de GetĂșlio”, ressalta Daily. GetĂșlio Vargas promoveu um conjunto de leis voltadas para a proteção do trabalho. A CLT tornou-se um marco ao estabelecer o salĂĄrio-mĂnimo, fĂ©rias remuneradas, pensĂ”es, semana de trabalho de 48 horas no mĂĄximo, entre outras medidas que davam direitos e garantias aos trabalhadores urbanos. As leis trabalhistas foram reunidas, em 1943, na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), regulamentando as relaçÔes entre patrĂ”es e empregados. Ele tambĂ©m legalizou os sindicatos, embora suas atividades ficassem sob a rĂgida fiscalização do Estado.
5. Investimento na educação pĂșblica
“AtĂ© GetĂșlio entrar no poder, na primeira era Vargas, o Brasil ainda era muito elitizado no quesito educação. Ele criou o conceito de educação pĂșblica em 1931, assim como criou o conceito de saĂșde pĂșblica”, comenta o coordenador de histĂłria.
O governo de GetĂșlio realizou importantes reformas educacionais. Durante o primeiro governo (1930-1945) Vargas criou o MinistĂ©rio da Educação e SaĂșde (1930) voltado para a construção de um sistema nacional pĂșblico de ensino.
Em 1934 foi aprovada uma nova Constituição, que passou a considerar a educação um direito de todos e atribuĂa ao Governo Federal a função de definir diretrizes para a educação nacional. Foram criados fundos para garantir recursos para a educação e concursos pĂșblicos para professores.
JĂĄ no Estado Novo, apĂłs a Constituição de 1937, de inspiração fascista, o Estado buscou difundir as ideias nacionalistas e tornou obrigatĂłria a disciplina de Educação Moral e CĂvica para crianças e jovens nas escolas.
6. Os fundamentos da atual Justiça Eleitoral
Durante a RepĂșblica Velha, as eleiçÔes foram marcadas por fraudes nas urnas. A moralização do sistema eleitoral foi uma bandeira da Revolução de 30. Em 1932, o governo provisĂłrio promulgou o primeiro CĂłdigo Eleitoral do Brasil, que regulamentou as eleiçÔes federais, estaduais e municipais e as diversas fases do processo eleitoral. O CĂłdigo instaurou o voto secreto, o voto das mulheres e os dois turnos de eleiçÔes.
“Ele criou mecanismos e bases para a atual justiça”, diz o professor, embora as mesmas bases tenham sido revogadas anos depois no perĂodo do Estado Novo (1937-1945), quando GetĂșlio Vargas centralizou ainda mais o poder.
A Constituição de 1937 extinguiu a Justiça Eleitoral e os partidos polĂticos existentes, suspendeu as eleiçÔes livres e estabeleceu eleição indireta para presidente da RepĂșblica, com mandato de seis anos.
7. A propaganda do Estado: censura, cultura e ufanismo
O Estado Novo (1937-1945) investiu em novas formas de comunicação com a população, como a televisão e o rådio. O regime utilizou intensamente a promoção da cultura brasileira e a propaganda para mostrar uma imagem positiva do regime e buscar uma identidade nacional. O órgão responsåvel pela propaganda do governo era o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que controlava os órgãos de imprensa e meios de comunicação, por meio da censura.
“Antes de GetĂșlio o Brasil era um amontoado de feudos de famĂlias no poder. Ele tentou mudar isso, para ressaltar a sua figura Ășnica, e usou muito a polĂtica cultural, por exemplo, financiando o vĂdeo da Carmen Miranda nos EUA, tivemos a composição da Aquarela do Brasil, composta por Ary Barroso em 1939, com tom ufanista e favorĂĄvel a GetĂșlio jĂĄ no perĂodo do Estado Novo, e o uso extensivo das mĂdias que ele tinha Ă©poca, como o rĂĄdio e a TV, seguindo, por exemplo, Hitler e Stalin, que usavam esses meios de forma intensa”.
Por: Andréia Martins e Carolina Cunha são jornalistas
Bibliografia
- GetĂșlio, GetĂșlio 2 e GetĂșlio 3, trilogia de Lira Neto (Companhia das Letras)
- GetĂșlio, Juremir Machado da Silva (Best-Seller; 2008)
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