Carcinicultura aposta no interior do Estado para sustentar novo ciclo

Segundo maior produtor do país, Estado responde por cerca de 25% da produção nacional e projeta crescimento de dois dígitos com retomada das exportações

 


O balanço de 2025 da carcinicultura no Rio Grande do Norte é considerado “bastante positivo” pelo secretário estadual de Agricultura, Guilherme Saldanha. Segundo ele, o Estado consolidou-se como o segundo maior produtor brasileiro de camarão cultivado, atrás apenas do Ceará, e responde por cerca de 25% das aproximadamente 200 mil toneladas produzidas anualmente no País.

Com faturamento estimado em mais de R$ 1 bilhão por ano, a atividade combina peso econômico e forte impacto social, sobretudo no semiárido potiguar. A estratégia do governo para os próximos anos aposta na interiorização da produção e na possível reabertura de mercados externos, especialmente a União Europeia.

Estrutura industrial fortalece competitividade

Um dos diferenciais do Estado é o avanço no beneficiamento e na industrialização do camarão. Atualmente, pelo menos quatro plantas realizam processamento e congelamento no território potiguar. A maior delas à empresa Potiporã, que faz parte do grupo San Maria, instalada no município de Pendências.

A verticalização da cadeia, com produção em cativeiro predominantemente da espécie vannamei — a mais demandada no mercado global —, permitiu ganhos de qualidade e padronização ao longo dos últimos 15 anos. O domínio tecnológico em manejo, sanidade e alimentação consolidou o camarão potiguar como produto de referência no mercado doméstico.

Atualmente, cerca de 100% da produção é absorvida pelo mercado nacional, movimento que se intensificou após o embargo às exportações brasileiras de pescado em meados da década passada. A restrição internacional forçou uma reorientação comercial, mas também impulsionou o consumo interno.

Mercado externo no radar

Até 2005 e 2007, a maior parte do camarão brasileiro tinha como destino a Europa. O embargo às exportações de pescado afetou diretamente o setor, redirecionando a oferta para o mercado interno.

Agora, a expectativa do governo estadual está na retomada gradual das vendas externas. As negociações entre o Brasil e a União Europeia são acompanhadas de perto pela Secretaria de Agricultura. Segundo Saldanha, um eventual avanço no acordo entre o bloco europeu e o Mercosul pode reabrir oportunidades relevantes.

Atualmente, há embarques pontuais para os Estados Unidos e para mercados dos Emirados Árabes, além de expectativa de habilitação sanitária para a China. A ampliação do acesso a esses mercados é vista como condição para sustentar uma nova etapa de crescimento da produção.

Interiorização leva “o mar ao sertão”

A principal aposta estratégica para os próximos anos é a interiorização da carcinicultura. Inspirado na experiência do Ceará — onde a expansão para áreas continentais foi decisiva para o salto produtivo — o governo do Rio Grande do Norte encaminhou projeto de lei à Assembleia Legislativa para estimular a atividade longe do litoral.

As ações se concentram em regiões com segurança hídrica assegurada por grandes reservatórios e pela integração com o Rio São Francisco, como o Vale do Açu, a Chapada do Apodi e o Seridó.

O objetivo é duplo: ampliar a área produtiva e reduzir conflitos ambientais historicamente associados às áreas de manguezais no litoral. “A interiorização é uma realidade e deve sustentar crescimento a dois dígitos nos próximos anos”, afirma o secretário.

Emprego formal e impacto social no semiárido

Além do faturamento bilionário, a cadeia produtiva do camarão é intensiva em mão de obra formal. Estimativas da Secretaria apontam para 25 mil a 35 mil empregos diretos com carteira assinada no Estado — número expressivo para regiões do semiárido, onde a formalização do trabalho rural costuma ser mais limitada.

Segundo o governo, a interiorização pode dobrar a importância econômica e social da atividade em até cinco anos, ampliando renda e arrecadação em municípios do interior.

Licenciamento ambiental como ativo competitivo

Outro ponto destacado pelo secretário é o grau de regulamentação ambiental do setor. Cerca de 75% da produção potiguar possui licenciamento ambiental e outorga de uso da água.

O cumprimento das exigências é condição para acesso a crédito rural — especialmente junto ao Banco do Nordeste — e a tarifas diferenciadas de energia elétrica para bombeamento de água. Também é requisito para obtenção de outorga junto à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.

Após um histórico de conflitos com órgãos ambientais no início da expansão da atividade, o setor passou por forte processo de regularização. Hoje, segundo o governo estadual, a conformidade ambiental é tratada como diferencial competitivo, sobretudo diante de mercados externos mais exigentes.

Perspectiva para 2026

Com base no cenário atual, o governo projeta 2026 como um ano de consolidação do novo ciclo de crescimento. A combinação entre interiorização, possível reabertura de mercados internacionais e base produtiva tecnologicamente consolidada sustenta a expectativa de expansão acima de dois dígitos.

Se confirmada a retomada das exportações para Europa e China, o Rio Grande do Norte pode reforçar sua posição como protagonista nacional da carcinicultura, em uma atividade que alia geração de divisas, formalização do trabalho e dinamização do semiárido nordestino.

Fonte: Agorarn

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