Medo...

Resultado de imagem para medo de escuro fotosMedo do escuro

E todas as noites era a mesma coisa. A mãe acabava de contar a estorinha e ele começava a fazer mil perguntas, querendo saber quem escreveu aquele livro, o que acontecia com a mocinha depois que ela era salva, quantos anos os três porquinhos tinham e mais tudo o que lhe viesse pela cabeça. De início a mãe pensou que talvez ele pudesse crescer e se tornar um escritor, mas não demorou a descobrir que tudo era um expediente para que ela ficasse com ele mais tempo, tudo para que não ficasse sozinho em seu quarto.
O menino se perguntava como é que as pessoas davam conta de crescer, pois era preciso, antes de mais nada, sobreviver aos monstros que habitavam os armários e que se rastejavam embaixo da cama e que, pior de tudo, apenas davam as caras medonhas quando tudo estava escuro, sem algum adulto por perto. Muitas coisas eram necessárias para escapar ileso. O primo, por exemplo, tinha conseguido resolver esse problema, pois convenceu o pai a trocar de lugar com ele. Para isso, é claro, foi preciso muita birra, pesadelos e lágrimas. Mas dera certo! Agora com ele a coisa era diferente: os pais eram jogo duro. Ele bem que tentou, mas antes que as broncas virassem um castigo mais sério, resolveu que seria preciso criar estratégias.
Por algum tempo, desse modo, ele enganou a mãe. Fazia as tarefas correndo e reservada ao menos uma hora para dar uma olhada no livro que pediria para ser contado à noite, já tentando antecipar as perguntas que poderia fazer. Não dava para ser amador. Ele tinha que convencer a mãe de que tinha dúvidas, curiosidades e inquietações sobre os enredos dos pequenos livretos que ela lia para ele. Não que ele não gostasse das estórias, mas é que quando elas se aproximavam do final ele começava a ficar com tanto pavor que perdia o fio da meada e, suando frio, ficava incapaz de formular qualquer pergunta com sentido.
Quando a mãe se deu conta das verdadeiras motivações dele, estabeleceu, um tanto desapontada, que continuaria com o ritual de contar estórias, mas que tão logo acabasse, apagaria a luz e todos iriam dormir! Como se ele pudesse!! Quisera ele tudo fosse tão simples como a mãe desejava. Será que ela não fora criança? Ou será que naquele tempo os monstros ainda não haviam invadido os quartos? Tudo o que ele sabia era que bastava estar sozinho no escuro que as coisas começavam a ficar diferentes.
Ele até já conhecia alguns dos monstros, o que não significava que gostasse ou fosse amigos deles. Era apenas uma questão de reconhecimento. Tinha o peludo que morava no guarda-roupa e que adorava ficar grudado nos casacos de frio, só para não ser encontrado quando acendiam as luzes. O que mais dava medo nele eram os esquisitos que ficavam embaixo da cama. Por causa deles ele era obrigado a não deixar nenhuma ponta dos pés para fora da cama, de preferência deixando-os cobertos, mesmo no calor de lascar. Tudo o que rolava lá para baixo ficava perdido para todo sempre, pois ele que não era louco de enfiar suas mãos lá debaixo. Quando fez isso uma vez, o dedo saiu furado, com uma gotinha de sangue. De nada adiantou gritar para que a mãe o socorresse, porque tudo que ela fez foi dar risada dele, mostrando que ele se machucara em um espinho, provavelmente trazido pelo próprio sapato dele.
Alguma coisa deveria acontecer com os adultos, ele pensava. Deveriam ficar cegos para muitas coisas. Só podia. A mãe dizia que isso era até verdade de certa forma, mas que não incluía deixar de ver monstros. Ao contrário, dizia ela, quando ele se tornasse adulto, veria que os monstros são bem piores do que ele achava, mas que não eram do tipo que ele tinha medo. Ele não entendia como a mãe achava que isso poderia deixa-lo mais calmo, porque ele não queria mais era ver monstros de nenhuma espécie, embora a mãe dissesse que isso não era possível.
Um dia, depois que mãe disse boa noite, ele resolveu que iria enfrentar o que fosse. Que viessem o peludo e os esquisitos! Ele não iria mais ser um prisioneiro no seu próprio quarto. Assim que as luzes se apagaram ele pulou da cama, armado de um crucifixo e de uma espada de brinquedo, resolvido a matar ou a morrer, ainda que de susto. Quem sabe assim alguém lhe desse ouvidos? Levantou de repente, para ter o elemento surpresa e acendeu as luzes. Com o coração aos pulos, olhou para todos os lados e, assim que conseguiu se mexer, constatou que era apenas um quarto vazio. Deveria mesmo tudo ser uma imensa bobagem da parte dele. Respirou fundo e deitou-se novamente, agora com a rebeldia de deixar os pés para fora, atirando a espada para debaixo da cama.
Poucos segundos depois, estava dormindo profundamente e sequer pode escutar as vozes que, no escuro, desejaram a ele boa noite, dando adeus à infância que um dia vivera naquele quarto….
Fonte: “PAZ”
*Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, mestra em Direito, professora universitária e escritora – São Paulo.
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