Oncologia: cirurgias foram reduzidas

Wils Moreno
Várias ações foram desenvolvidas como parte da campanha de conscientização

Mais um mês de outubro chega ao fim. Com ele termina também a campanha "Ou-tubro Rosa", cujo objetivo é levar informações às mulheres e despertar suas consciências sobre a necessidade da realização da mamografia e a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama na luta contra a doença e em favor da vida.  Por: Luciano Araújo

Em termos de conscientização, a avaliação da campanha é positiva, pois o número de pessoas, instituições e empresas que aderiram à iniciativa cresceu.

No entanto, algumas dificuldades enfrentadas pela oncologia em Mossoró fizeram com que o mês perdesse um pouco de sua cor. Durante boa parte desses 31 dias, as cirurgias oncológicas permaneceram paralisadas. A retomada ocorreu na segunda-feira passada, 28, mas o número de procedimentos foi reduzido, o que contribuiu para a formação de uma fila de espera, que aflige quem aguarda.

Erimar Rocha, 48 anos, é uma das que ocupa a fila há 21 dias. Ela descobriu há poucos meses um nódulo na mama. Agora tem que passar pela cirurgia para que seja realizada a biopsia e identificado o tipo de nódulo, a fim de que, a partir daí, o médico inicie o tratamento.
Seu histórico a preocupa. Em abril de 2010 ela descobriu o primeiro nódulo. Erimar conta que às vezes sentia o seio "queimar" e durante o banho percebeu o tumor. Foi quando procurou o médico, que diagnosticou que o tumor era maligno. "No mesmo período dessa vez, estava também no processo de greve", lembra. Mas na época, ela precisou fazer quimioterapia e quando concluiu o procedimento a paralisação já havia acabado, permitindo que desse continuidade ao tratamento. Erimar precisou retirar completamente uma de suas mamas. De acordo com o que a médica lhe informou naquele momento, ela possuía um tipo de câncer raro, que evolui rapidamente.

Desta vez o alerta veio, novamente, quando sentiu a sensação de "queima" na segunda mama, mas ela conta que tinha medo de fazer o autoexame. Como a data para retorno ao médico estava próxima, o profissional comprovou que se tratava de um nódulo.

Mas ela ainda não sabe qual o tipo de tumor e explica que o médico não quer perder tempo, por isso planeja a cirurgia para a retirada do nódulo e realização da biopsia, procedimento que determinará qual o tratamento indicado, dependendo se o tumor for benigno ou maligno. Na primeira hipótese, apenas o nódulo será retirado, mas se o resultado apontar para um tumor maligno, ela terá que retirar toda a outra mama.


Porém, para que possa começar o tratamento, ela precisa passar pela cirurgia, o que só acontecerá quando alcançar sua vez na fila de espera. "Nesse caso a gente se sente muito prejudicada", revela.
"Oficialmente, estou na fila de espera há 20 dias", informa. A demora angustia não só a paciente: "Nisso sofre todo mundo, a família sofre... eu sei que estou me prejudicando, cada vez mais, porque não reduz", diz ela.
Quando soube da paralisação das cirurgias, veio o desespero. "Eu fiquei sem chão, o medo bate. Sofre a família, sofre a gente, que não pode fazer nada. Vejo a situação das outras pessoas, pois não sou só eu", desabafa, entre lágrimas.
Ela reconhece o trabalho dos profissionais do Centro de Oncologia e Hematologia de Mossoró (COHM), mas sabe que nem tudo depende dos médicos. "Dr. Cure e os outros médicos são excelentes, lutam com garra pela vida da gente", comenta.
Erimar questiona como ficam as vidas das pessoas que aguardam por uma cirurgia. "E nós? A vida? E a gente?", indaga. "O câncer não é brincadeira", acrescenta.
Como já enfrentou a doença uma vez, teme ter que fazer novamente. "Eu morro de medo da quimioterapia. Eu já passei por uma e não quero passar por outra", afirma.
Mesmo com as dificuldades, mantém a esperança: "Tenho fé em Deus que eu vou viver muitos anos de vida". Mas sabe que nessa luta cada dia é importante. "É a luta contra o tempo, é a vontade de viver", diz ela.
A paciente apela para a sensibilização de quem pode resolver o problema. "O apelo é esse, ver se essas autoridades caem na realidade, se sensibilizam com a situação do Centro de Oncologia, que é muita gente, não sou só eu. É muita gente, muita gente encurtando vidas", ressalta.
As cirurgias foram retomadas na segunda-feira passada, 28. No entanto, em decorrência da estipulação do teto financeiro mensal para o COHM ser de 393.279,56, o número de procedimentos foi reduzido e serão priorizados os casos mais avançados da doença, como informa o médico Cure Medeiros. Com isso, se antes eram realizadas 400 cirurgias por mês, agora serão 200, fazendo com que haja uma fila de espera pelo procedimento.
Ele espera que a situação seja resolvida em nível de Brasília. Para isso, a Prefeitura de Mossoró recorreu ao Governo do Estado, que, por sua vez, recorreu ao Governo Federal solicitando o aumento do teto em R$ 1 milhão a mais, assim não haveria mais razão para filas. O próprio Cure Medeiros também enviou uma cópia do documento solicitando ao presidente da Câmara, Henrique Alves, interseção junto ao responsável pelo setor.
A resposta pode sair ainda hoje. Caso o pedido seja aprovado, o médico acredita que dentro de um mês o repasse possa ser feito ao município.
O médico lembra que o tempo de espera é cruel e mexe com o psicológico do paciente. "A espera é angustiante", resume.
De acordo com o secretário de Comunicação da Prefeitura, Julierme Torres, o entendimento entre médicos e a Prefeitura foi fechado e o município irá pagar a diferença do débito que havia entre Prefeitura de Mossoró e COHM.

Outubro Rosa cumpre papel de conscientizar população
Apesar das dificuldades enfrentadas pela oncologia, para Cure Medeiros a avaliação do mês de outubro é positiva, sobretudo, porque durante o mês a campanha "Outubro Rosa" cumpriu seu papel de conscientizar a sociedade. Papel que vem sendo cumprido mesmo sem a intervenção do COHM, pois mais gente está aderindo à iniciativa. São empresas, universidades e igrejas, entre outras, que levam conhecimento à população, promovem ou sediam palestras sobre o tema e mesmo prédios iluminados de rosa, lembrando a importância do diagnóstico precoce.
O médico comenta ainda o sucesso da campanha, através da disseminação das ações e a co-responsabilidade do poder público, das empresas e instituições em geral e lembra que até mesmo os menores municípios desenvolveram atividades voltadas para a temática.

"Isso é bom, mesmo tendo passado por esses problemas", diz ele. Como fruto das ações, ele acredita que em breve o número de pessoas realizando mamografias aumentará.
"O balanço, não de Mossoró, mas de toda a região Oeste é positivo", diz Medeiros. Com relação à cidade, a avaliação também é boa, já que este ano Mossoró conseguiu fechar um ciclo de tratamento na cidade e hoje é autossuficiente no combate ao câncer.
O assessor de comunicação da Liga de Estudos e Combate ao Câncer de Mossoró (LECCM), Anderson Silvestre, comenta que a entidade elaborou uma programação e iria fechar o mês com a Caminhada das Vitoriosas, prevista para ocorrer no sábado passado, 26. Porém, no decorrer do mês a equipe percebeu que não era viável realizar a caminhada. Embora não fossem necessários recursos específicos para essa programação, a oncologia como um todo passava por problemas, por isso a suspensão.
Apesar disso, ele também avalia o mês como positivo, pois foram realizadas palestras em empresas e grupos de serviço, alertando a população sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama. Além disso, outras ações foram desenvolvidas, como o pit stop, que contou com a presença de voluntárias em vários pontos da cidade, levando informações à sociedade sobre a doença e arrecadando doações. Em uma manhã foram coletados R$ 1.164,35, que serão revertidos para a manutenção do Hospital da Solidariedade.

DADOS
De acordo com informações repassadas pelo Centro de oncologia e Hematologia de Mossoró (COHM), o câncer de mama é o segundo tipo da doença mais frequente no mundo, sendo o mais comum entre as mulheres e o responsável por 22% dos casos novos a cada ano. "Se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente bom", afirma o texto.
Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que 52.680 novos casos de câncer foram diagnosticados no País no ano passado.
Em Mossoró, de janeiro a dezembro do ano passado foram notificados 109 novos casos de câncer de mama pelo Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do COHM. Ainda em 2012, o Centro de Oncologia registrou 12 óbitos decorrentes da doença.
Em outubro do ano passado, 198 mulheres estavam em tratamento contra o câncer de mama no COHM e 46 cirurgias mamárias foram realizadas.
Os dados referentes a outubro deste ano ainda não foram elaborados, porém, de acordo com o médico Cure Medeiros, o número de procedimentos, no mínimo, duplicou. Isso porque a quantidade de salas de cirurgias passou de uma, em 2012, para quatro este ano; houve aumento no número de pacientes e no número de cidades circunvizinhas que deixaram de encaminhar os pacientes para a capital e passaram a encaminhá-los para Mossoró. Houve ainda aumento na quantidade de mastologistas e de procedimentos.
Em resumo, ele comenta que a quantidade de cirurgias deve ter sido maior pela própria estrutura existente hoje. Mas o total poderia ter sido ainda maior se as cirurgias não tivessem sido paralisadas durante boa parte do mês de outubro.


Fonte: Gazeta do Oeste
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